A Novela: dos Menestréis à Cultura De Massa.




23 fevereiro 2016



“A arte só oferece alternativas a quem não está prisioneiro dos
meios de comunicação de massas.”
(Umberto Eco)

Quando falamos de novelas, obviamente lembramos primeiro das novelas transmitidas pelas televisões, as Telenovelas. São as mais populares e com maior penetração social. Entretanto as novelas já se prestaram mais a contar histórias da vida real do que a inventar modas transpostas para o dia a dia. Já lá pelas estradas do século XII os menestréis, poetas populares inteligentes e ácidos, espalhavam notícias de lugares longínquos cantando suas trovas enaltecendo heróis ou denunciando reis, falando de farturas ou escassez, exaltando as belas mulheres e seus amores corteses.


Entretanto a população aumentou, os lugares se multiplicaram e as histórias cresceram em quantidades e páginas, não cabiam mais nas memórias dos menestréis, passaram a ser escritas e eram, agora, lidas. As poesias cantadas viraram novelas. Depois radionovelas e hoje telenovelas. No caso do gênero literário novela, não existe uma classificação unanime, mas poderíamos dizer que é um escrito mais longo que um conto e mais curto que um romance, com um ritmo mais acelerado, com um grande número de personagens em que a narração segue em capítulos, onde o leitor é instigado a ler o capítulo seguinte pelas emoções despertadas no final do anterior.


As novelas sempre foram formadoras de opiniões e modificadoras de comportamentos, entretanto nunca tanto quanto nesses anos televisivos e internéticos.  A dependência quase química causada pelas tramas escritas pelos novelistas e suas equipes se espalham e se entranham pela malha social com tamanha intensidade que podem deixar em suspense milhares de pessoas que se sentem instigados a discutir o desenrolar dos capítulos, amando ou odiando os personagens e, por vezes, os próprios atores encarnados na criação literária. Aliás, é um tipo diferente de produção literária essa tal de novela moderna (chamemos assim), enquanto o público era totalmente passivo nos tempos dos menestréis hoje o autor tem uma interatividade (im)pressionante dos telespectadores que dão palpites no ritmo e nas ações das crias do escritor, que não só torcem pelos seus heróis, mas ditam os caminhos que devem ser seguidos, os beijos que devem ou não aparecer na tela e quem vive ou morre no próximo capítulo.

As pesquisas entre os telespectadores servem para orientar o rumo dos acontecimentos e ditar por quanto tempo o folhetim estará no ar, o autor, por vezes, vê sua originalidade e criatividade amarrada ao discurso popular precisando atender a uma demanda que não é a da sua obra, mas sim da cultura de massa que vende um produto básico da vida: emoções. Mesmo assim quem conseguiu não ficar “vidrado” diante da TV esperando para saber quem matou Salomão Hayala ou Odete Roitman, para descobrir se havia acertado quem era a Mulher de Branco ou o Cadeirudo. Quem nunca esperou ansiosamente para rir com a Viúva Porcina ou quis ser fotografada pelo Jorge Mateus? Pois é! A novela mudou, mas não sumiu. Hoje ainda encontramos autores que escrevem livros no estilo romances novelescos. Esse que vos escreve, por exemplo, é um adepto do suspense ao final de cada capítulo para levar ao leitor um gostinho de quero mais. Fiquemos, então, assim: Com muita Malhação aceitemos a Regra do Jogo e os Mandamentos (sejam Dez ou mais) e vamos descobrir se a Dona do Carrossel é mesmo a Tereza, que, aliás, é Totalmente Demais. Esse final não ficou muito legal, mesmo assim podemos dizer: Êta Mundo Bom!
Abraços literários.



27 comentários:

  1. Olá!
    Já fui viciada em novelas, daquelas que mandava qualquer um "calar a boca" se estivesse falando em meio as novelas, daquela que não saía se fosse no horário daquele capítulo emocionante da novela ...
    Mas hoje agradeço por ter me livrado desse vício. Antigamente as novelas tinham conteúdo, como diz no texto, falavam sobre as histórias do dia-a-dia. Hoje só vemos violência, mortes, inveja, intrigas e, por mais que essa seja a nossa realidade atualmente, não acho que assistir a esse tipo de maldade vá edificar algo, ou trazer coisas boas para dentro da minha casa.
    Precisamos de alegria, voltamos cansados de um dia difícil no trabalho e o que nos recebe na televisão são coisas que nos atormentam ...
    Gostei bastante do seu post, mas precisamos refletir mais sobre o que colocamos dentro das nossas casas.

    Abraços, Lara.
    https://www.facebook.com/dayane.beatriz.969

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  2. Oiee,
    Eu não sou o maior fã de novelas, assisto raramente alguns capítulos de uma ou outra.

    Abraços!
    http://lendocomobiel.blogspot.com.br/

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  3. Olá,
    Ual que pesquisa, que publicação, estou besta o quanto está boa viu, não que eu duvide da sua capacidade, mas que nossa, vocÊ arrasou, eu já fui muito apaixonada por novela, mas hoje em dia sei lá pra mim e tudo chata e besta. kkkk
    Mas adorei mesmo sua publicação, meus parabéns.
    Beijos

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  4. Poxa vida que texto belíssimo, irei salvar aqui como favorito.
    Assisto novelas algumas vezes quando minha mãe está assistindo, confesso que não sou muito fã, mas me encanto pelo trabalho dos atores.
    Queria dizer sobre essa frase de início do Humberto Eco, quero muito ler o livro dele "O Nome da Rosa" e fiquei muito chateada com sua morte há poucos dias, pois seu trabalho é encantador.

    Abraços
    http://blog-myselfhere.blogspot.com.br/

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    1. Muito obrigado, Bárbara. Que bom que você gostou e o Umberto Eco dispensa comentários. Abraço.

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  5. Oláa! Gostei muito dessa postagem, principalmente porque consegui aprender coisas novas, não sabia dessas histórias sobre as novelas. Muito bom mesmo! Faz muito tempo que não vejo novela, às vezes até começo a acompanhar, mas ao longo do tempo a trama vai perdendo a graça. Gosto mais das minisséries e olhe lá. Flores no Outono

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    1. Aléxia, é sempre muito bom ter a aprovação dos leitores, mas é ainda mais importante escrever textos que toquem vocês. Obrigado. Abraço.

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  6. Oiee, Leonardo ^^
    Lembro de ver muitas novelas quando era mais nova, principalmente com minha mãe. Mas hoje nem televisão eu assisto, prefiro mil vezes os livros, então fico com as histórias em que eu não preciso aguardar o dia seguinte para ver o que vai acontecer...hehe' a não ser os livros que ainda não têm continuação *-* Acho que teria gostado bastante dessas novelas que contavam histórias mais reais.
    MilkMilks
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br

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    1. Oi Dryh, essas que contam as histórias reais são bem antigas, são aquelas dos menestréis. Obrigado pelas suas palavras. Abraço.

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  7. Oie. Tudo bem? Achei o texto esplêndido, com bastante informação que eu mesma não fazia ideia. Sempre fui de ver novelas com a minha avó na infância, hoje não vejo mais, mas confesso que ficava muito apreendida pra descobrir certas coisas. Lembro do cadeirudo que você citou... As melhores novelas são as antigas.

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    1. Oi, Thaísa. Muito legal que você gostou. Abraço.

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  8. Oiiie
    Eu até via novela há alguns anos mas hoje em dia não consigo nem ouvir falar, acho perca de tempo, mas imagino que as antigas eram bem melhores mesmo e com mais conteudo, ótimo texto

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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    1. Olá, Catharina. Pois é, quanto mais o tempo passa mais comercial se torna a cultura. Abraço.

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  9. Nossa, que matéria interessante! Adorei ver mais sobre a origem e história das novelas.
    Parabéns pela ideia original e pelo texto!

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    1. Oi, Dany. obrigado pelo seu comentário, que bom que você gostou. Abraço.

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  10. Oi Leonardo Nóbrega, primeiramente vou parabenizar o teu texto, que está incrível e super instrutivo. No Período passado eu paguei uma cadeira de comunicação social, o que me faz ter alguma noção em relação ao seu texto.
    Olha te confesso que esse assunto que se referia a comunicação de massa me irritou bastante, nós analisavamos algumas teorias que por sua vez tentavam explicar como durante as épocas a mídia foi mudando e se adaptando, talvez a minha irritação foi porque em alguns momentos eu me sentisse usada, me senti parte dessa massa e sei que sofri com essa manipulação subjetiva e em outros momentos entrei em negação e não queria acreditar que isso realmente contecia, mas infelizmente quando analisamos essas teorias e lemos artigos como o seu percebemos que essa manipulação da mídia acontece e é histórica, como comprova essa "evolução" das novelas, que você tão bem explicou. Seu texto dá muito o que pensar.

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    1. Olá, Kris. Obrigado pela participação. Exatamente isso, quanto mais avançamos no tempo mais comercial vai ficando a Cultura de Massa. É uma pena que veículos de comunicação tão poderosos não sejam usados em prol da educação e do entretenimento em um nível mais elevado. Abraço.

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  11. Olá, tudo bem?
    Primeiramente, este seu texto foi maravilhoso, achei muito bem explicativo. Acreditava que somente existiam a telenovela e a radionovela, nunca iria imaginar que na verdade era um gênero literário.
    Achei muito legal você fazer um texto para leigos como eu, saibamos as diferenças e que não existiu somente a que se passa na TV, que teve uma "história" por trás do que vemos hoje.
    Beijos,
    Larissa (laoliphant.com.br)

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    1. Olá, Larissa. Obrigado pelas gentis palavras. Abraço

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  12. Leonardo trazendo, mais uma vez, um texto daqueles! Adoro como você desenvolve seu raciocínio e nos faz pensar naquilo que escreve; esse texto por exemplo me trouxe uma ótima reflexão. Além de informativo, seus textos são gostosos de ler. E o final ficou ótimo! hahaha
    Beijo!

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    1. Gabrielly, assim fico gabola rsrsrs. Obrigado e abraços.

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  13. Olá, tudo bem?
    Adorei o seu texto, muito bem escrito e explicativo! Eu sempre tive curiosidade sobre o que era novela (na questão "livros") porque sempre dizem que Harry Potter é uma novela e eu achei que fosse romance. É bom entender o que significa.
    Sobre as telenovelas, eu AMAVA quando era mais nova, principalmente as mexicanas, não me julgue rs mas depois de mais velha, quantos mais livros eu fui lendo, menos TV fui assistindo. E depois que entendi o que as novelas fazem com as massas, me senti como a Kris, usada. Então, faz bastante tempo que não assisto novelas e fico bem feliz com isso.
    Abraços!

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    1. Roberta, uma narrativa longa é um romance (independente de ter amores e paixões), mas o que tem sequência ficou popular chamar de novela. Acho que o Harry é um romance anovelado rsrsrsrsrs. Abraço

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  14. Olá, gostei muito do post, novela como gênero literário eu li poucas, e quando vejo um livro classificado dessa forma já fico curiosa em lê-lo. Quanto as telenovelas, algumas tem algumas tramas interessantes.

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  15. Há muito tempo que não consigo acomoanhar novelas, já fiz muito disso, rs.
    Essa eu sinceramente não conhecia, mas lendo seu post vi que ela não faz muito meu estilo. :)

    Bjs!

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, homossexualidade, violência sexual e alcoolismo. A escritora mantém um blog literário e está sempre bem informada sobre questões sociais que acontecem em nosso país. É defensora da tese de que todos são diferentes e merecem ser tratados com equidade. Ela adora escrever sobre temas que incomodam e diz não ter medo do preconceito. Trabalha no movimento social e acredita que a educação é capaz de trazer mudanças significativas ao país.

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