Resenha - Misérias Anônimas




20 abril 2016


Eis mais uma leitura da Chiado Editora que me deixa no mínimo perturbada, saindo adoravelmente de minha zona de conforto... [na verdade não saindo tanto assim...] Misérias Anônimas, de Paulo Viana, é o retrato ficcional da não-ficção de muitos, e que ilustra bem o cotidiano de famílias imersas no descaso e nas tristes fatalidades do destino...

"O velho poste de madeira emitia uma  amarela agourenta sobre as duas crianças que brincavam em uma viela imunda ao pé do morro. Ao lado, uma imensa escadaria serpenteava dividindo o Morro de Santa Virgínia ao meio. Os barracos de madeira e zinco e as vielas labirínticas davam ao morro uma aparência de formigueiro desordenado."

O cenário principal é o Morro de Santa Virgínia. Ousaria dizer que a favela é em si um protagonista, que enreda e entrelaça os ali viventes numa teia de desastres partilhados ao longo de anos... figuras anônimas que ganham nomes nessa obra, e cada uma delas representando um indivíduo da vida real...

Um garoto é abusado constantemente pelo próprio pai, enquanto assiste a sua mãe ser espancada em seu barraco pobre no morro. A fim de aplacar a dor das surras, Antonia se refugia nos livros de romance. Outra que é abandonada pelo pai de seus filhos e após uma tragédia, perde um de seus rebentos... Há também uma garota que vive em função de cuidar de sua mãe doente. Uma mulher jogada num asilo depois de ter sua fortuna roubada pelos próprios filhos... O destino dessas pessoas se choca, dando vida à uma cantora pop famosa mais de uma década depois. E que precisa retornar ao seu passado, a fim de enterrar de vez o sofrimento de toda sua infância naquele lugar esquecido por muitos...

Uma mãe drogada, fome, medo da polícia, problema com moradias, pai bêbado e violento pode soar clichês como elementos para essa trama, mas estão tão bem estruturados que parecem soar como uma música, melancólica e triste. Juntem a arrogância de alguns e o desprezo de outros, bem como o muro invisível que separa pobres e ricos e temos um retrato bem fiel à realidade brasileira, e o autor consegue dar voz e vez à mãe que perdeu seu filho num mar de lama após a tempestade por abaixo os barracos da encosta, à filha que se deixa seduzir depois de muito resistir aos encantos do tráfico, que promete vida fácil, mesmo perigosa. Tal sedução se sobressai às misérias da vida na favela, e no fim das contas, parece ser o único caminho disponível a se trilhar por pessoas como ela...

Outro ponto importante a frisar nessa obra, que cumpre bem o papel de crítica social é a posição da mulher, em vários aspectos, que labuta para sustentar os filhos, depois que o homem da casa vai embora. A violência que permeia a vida de Antonia, Eugênia, Henrieta e Hercília, de Amália e Anabela supera o físico, abala o psicológico dessas mulheres, atinge as camadas mais profundas de suas existências. E até Giovanna, a artista pop que volta para encarar seu passado, tem demônios a enfrentar e que atormentam seu espírito. E falando em Giovanna, além de negra, simboliza outro tipo de indivíduo execrado pela sociedade, mas que se valendo do campo ficcional, Paulo Viana permite a ela um final feliz...

Sobre a parte técnica do livro, se houve algum erro em sua diagramação, as lágrimas que derramei em alguns trechos fizeram passá-lo despercebido... Uma capa belíssima [a obra Retirantes, de Cândido Portinari] simboliza muito bem o retiro de alguns daquela aridez de vida na favela... seja para uma melhor vida, seja para o desconhecido ou para a morte, em alguma sepultura no alto do morro...

"Nossa existência não é nada mais que um curto circuito de luz entre duas eternidades de escuridão." Vladimir Nabokov.


12 comentários:

  1. Nossa que história mais tensa, olha dificilmente eu me vejo lendo um livro deste mas fiquei realmente chocada com a história, e uma pena que isso por mais que achemos que não, aconteça.
    Ótima resenha, parabéns.

    Beijos

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  2. Oi, Maria!

    Definitivamente esse livro não é pra mim.
    Sempre fico mal com histórias de abuso e violência, seja em livros ou filmes.
    Então com certeza eu não vou ler esse, mesmo que seja bom.
    Não aguento, não.

    Beijos!

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  3. :o Gente do céu! Que história é essa que você contou? Estou chocado com isso tudo que você falou desse livro... Se bem me lembro nunca ouvi falar desse autor, mas já estou com vontade de ler.

    Só de ler o que falou "da história em si" me deu um NÓ na garganta, imagino como deve ter sido essa leitura e sobre a editora, estou ficando cada vez mais apaixonado pelos livros deles! São demais. ^^

    Atenciosamente Um baixinho nos Livros.

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  4. Olá!
    Nossa, esse livro é muito forte. Tipo, se eu começasse a ler, choraria muito pelos fatos acontecidos. Por mais que seja um livro assim tão cheio de tristezas, eu arriscaria a ler sim, apesar de não ser algo do meu Hábito.

    Garotinha Adolescente.

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  5. Hi baby, tudo bem? não conhecia esse livro mas parece ser um livro bem intenso e emocionante. gostei da sinopse e sei que assim como você também iria chorar muito! esse é um tema muito atual, a miséria faz parte da realidade do nosso pais e por isso é sempre triste lermos sobre ela. excelente resenha <3

    Lilian Valentim
    http://speakcinema.blogspot.com.br/
    beijinhos

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  6. Olá,
    Nossa, parece ser um livro bem denso, e pesado. Mas me interessou bastante!
    Excelente resenha!
    Beijos
    Jana

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  7. Oi Maria, essa obra parece ser bem interessante e tensa. Não é atoa que você chorou ao lê-la. A resenha ficou ótima.

    Abraços
    Literaleitura

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  8. Li poucos livros até hoje que me tiraram da minha zona de conforto, e confesso que gostei de acompanhar histórias mais tensas como a que eu li.
    Infelizmente este livro não me atraiu muito, mas conheço algumas pessoas que vão adorar.

    Beijos
    http://ummundochamadolivros.blogspot.com.br/

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  9. Que tenso!! Realmente deve ser bem emocionante e tocante. Muito linda a capa! - Joanna Amaro.

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  10. A história desse livro é uma realidade, apesar de ler de tudo um pouco não é o tipo de livro que leio com frequência, pela própria carga emocional, mas não vou descartar a dica. bjs

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  11. Oiiie
    esse é o tipo de livro que não costumo ler então vou deixar a dica passar mas parece ser uma leitura muito legal para quem curte o gênero, e a resenha está ótima

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  12. Oioi! Tudo bem?
    Comecei a ler mais os livros da Chiado, e tenho gostado, mas esse Misérias Anônimas nao me despertou mto interessante.
    Pelo que percebi é um livro tenso, com varias cenas tristes e que mexem com a gente.
    Nao estou mto no momneto para esse genero e leituras fortes, mas otima dica, vi que gostou bastante.
    Beijos.

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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