Resenha - Primo Levi: Os afogados e os sobreviventes




13 junho 2016



Delitos. Castigos. Penas. Impunidades. São termos que se encaixam nos horrores que ocorreram com os judeus, no período em que ficaram presos em vários campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. E Primo Levi, sobrevivente de um desses lugares horríveis traz em seu livro Os afogados e os sobreviventes relatos sobre tudo o que ele vivenciou e que foram registrados por outros desde a época...

Uma das propostas da obra é desmitificar a romantização pós-guerra relacionada aos judeus sobreviventes, provenientes da literatura e do cinema. Tenta mostrar de forma mais crua e realista o quão 'perdida' estava aquela geração que sobreviveu fisicamente, mas tiveram seu psicológico destruído, sofrendo as consequências anos depois... As notícias que se espalhavam sobre o holocausto beiravam ao absurdo, a ponto de se tornarem inacreditáveis. Em vários momentos, o mundo duvidou de tais testemunhos, por soarem cruéis, bizarros e desprovidos demais de humanidade... Mas foram reais...

A própria população alemã sabia exatamente o que ocorria com os judeus que eram levados aos campos de concentração? No que consistia a 'Solução Final'? Fingir não saber ou desviar-se dos fatos era uma maneira de aliviar a culpa do Holocausto? As indústrias lucravam fornecendo fornos crematórios aos campos nazistas, ignoravam deliberadamente sua utilidade, pois o lucro era mais valioso.

Levi discorre sobre as memórias que se perdem com o tempo. Eis um dos trechos mais interessantes a esse respeito:

"A maior parte das testemunhas, de defesa e de acusação, já desapareceram, e aqueles que restam e ainda (superando seus remorsos ou então suas feridas) concordam em testemunhar dispõem de lembranças cada vez mais desfocadas e estilizadas; frequentemente, sem que o saibam, lembranças influenciadas por notícias divulgadas mais tarde, por leituras ou por narrações alheias. Em alguns casos, naturalmente, a desmemória é simulada, mas os muitos anos transcorridos lhe dão crédito, mesmo em juízo: os "não sei" ou os "não sabia", proferidos hoje por muitos alemães, não mais escandalizam, ao passo que escandalizavam, ou deviam escandalizar, quando os fatos eram recentes."

A história vergonhosa das guerras ainda se repete nos dias atuais. Muda o palco, o cenário e atores, mas o contexto é o mesmo: ideologias religiosas e políticas...

O livro divide-se em capítulos em que o autor apresenta perspectivas diferentes ao leitor. Num deles, ele fala sobre a memória humana e os traumas que os sobreviventes carregam. A negação de má-fé e a negação a fim de se livrar da culpa, coletiva ou não -  dos alemães. Em outro capítulo, Levi fala sobre a zona cinzenta, o próprio Lager [campo de concentração] e sua 'funcionalidade'. O ingresso ao campo, "os chutes e os murros desde logo, muitas vezes no rosto; a orgia de ordens gritadas com cólera autêntica ou simulada; o desnudamento total; a raspagem dos cabelos; a vestimenta de farrapos."

Sobre a desumanização, é notório ao longo da obra trechos que falam acerca disso. Sobre delegar aos judeus que queimem os corpos dos 'seus'. A parte suja' dos atos cometidos contra a 'sub-raça', servia em parte para tirar dos ombros dos membros da SS a responsabilidade de tais perversidades. Quanto a criação de "Esquadrões", "através dessa instituição, tentava-se transferir para outrem, e precisamente para as vítimas, o peso do crime, de tal sorte que para o consolo delas não ficasse nem a consciência de ser inocente."

Os nazistas tiravam a identidade dos prisioneiros, tornando-os meramente anônimos, estatísticas, registros num livro. O coletivo o diminui a condição de 'apenas mais um corpo'. Outro questionamento interessante que Primo Levi coloca em evidência: o contexto histórico da época pode ter tornado muitos homens assassinos. Se não fosse a guerra, a ideologia nazista, tantos soldados seriam lembrados [ou não] por quaisquer outros motivos, e não por serem membros da SS, torturadores de judeus. Há que se pensar...

No capítulo que compete à vergonha, a pauta maior é sobre a romantização do fim do conflito. O fim não é como o fim de uma fome de horas, que se mata quando o pedido é trazido pelo garçom. O fim da guerra trouxe o desalento de não saber por onde retomar a vida, pois esta - junto com seus parentes e casa e bens - foi tirada. Muitos se suicidavam depois de anos libertos. Não suportavam o 'depois' que sobreveio a tragédia.

Ter uma colher ou saber alemão poderia ser uma vantagem para sobreviver um pouco mais nos campos, que se tornavam uma verdadeira Babel - com tanta confusão de línguas - de pessoas que compartilhavam a linhagem mas viviam em países de língua distinta. A dignidade dos judeus era roubada, eram reduzidos a animais. Muitos questionam o porquê de eles não terem fugido e Levi dá várias razões para que isto não tenha sido empreendido com sucesso...


Grifei vários trechos das 168 páginas que compõem Os afogados e os sobreviventes. Seria necessário um artigo acadêmico para passar aos leitores do blog todas as impressões que me marcaram na obra. E talvez ainda não fosse o suficiente. Mas me vejo no dever de recomendar o livro a todos que se interessam pela temática de guerra e Holocausto, a todos que se importam com o cenário atual do mundo, em que tantos conflitos ainda se fazem presentes. Numa linguagem que nos instiga a pensar, a leitura é essencial para o enriquecimento do saber. A nível de curiosos ou estudiosos do tema, é bom saber o quanto ódio e intolerância podem matar. A fim de se evitar isso...


8 comentários:

  1. Oi, como vai?

    Já ouvi falar sobre o autor, Primo Levi e de suas obras, mas jamais tive uma oportunidade de lê-los. E confesso que sua resenha aguçou ainda mais minha curiosidade. Gosto de histórias que retratam a guerra, principalmente se tratando de fatos reais. Esse quere ler imediatamente. Obrigada pela dica!

    http://www.cristinadeutsch.org/
    Saudações literárias.
    Beijos no ♥

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  2. Cheguei a saber do autor quando o livro foi lançado, mas ainda não tive oportunidade de ter essa obra (que me parece espetacular, tanto em conteúdo quanto em sentimento) em minha mãos. Gosto de ler livros com esta temática justamente pelo que você mencionou ao fim da sua belíssima resenha: aprender para evitar. Se todos conseguissem isso....

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  3. Esse livro deve ser demais! No momento não estou curioso em ler, mas quem sabe um dia eu não desfrute da história... Quanto a questão de grifar! Não sou muito, mas sempre anoto num papel o trecho que mais goste. ^^

    Atenciosamente Um baixinho nos Livros.

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  4. Olá! Gostei muito da premissa do livro, a temática dele chama bastante minha atenção! Parabéns pela resenha e pelo blog!

    Até mais!

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  5. Oioi!
    Não conhecia o livro Primo Levi: Os afogados e os sobreviventes e achei a capa simples, mas me chamou a atenção.
    Achei mto legal o trecho que colocou falando da memoria, me deixou interessada com o livro.
    Nao costumo ler livros com essa temarica, mas gostei da forma que mostrou tudo.
    Adorei a resenha.
    Beijos.

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  6. Olá!
    Eu não conhecia o livro, mas confesso que esse tipo de leitura não é para mim. Fujo de leituras com temática guerras e falar do holocausto é algo que não tenho estômago para ler. E o pior é ver que guerras por motivos religiosos e políticos continuam até hoje. Como você disse: muda o palco, o cenário, os atores, mas o contexto é o mesmo. =/
    Sua resenha ficou ótima.
    Beijos!

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  7. oi ^^
    já ouvi falar muito do livro, mas não consigo me sentir atraída pela leitura. até pretendo ler, mas não no momento. sou dessas que não quer ler o livro e quando bate a vontade eu tenho uma cópia no kindle pra ir conferir.
    se eu for ler, espero gostar (apesar de guerras e tudo mais não ser minha praia, tenho certo interesse). Seguindo o Coelho Branco

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  8. Oii Val, resenha ótima! A primeira que leio sobre esse livro. Bem, não me senti tão atraída de início, mas só por ser uma história real já me interessa, e ainda mais sobre a segunda guerra mundial! Espero ter a oportunidade de ler...
    Beijos!

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