Resenha – O Olho do Boto – Um Romance Homo(Ama)Zônico




20 outubro 2016



Depois de uma interminável espera, consegui me deliciar com o livro O olho do Boto, de Salomão Larêdo, 280 páginas, Editora Empíreo. Longa espera, pois a obra, exige no mínimo um leitor educado, alguém que esteja disposto a dedicar-se. Para minha tristeza, esse foi o primeiro livro que li do autor, para minha alegria, que experiência excepcional. E mais, contabilizei, em pesquisa, uma média de quase quarenta livros, então, essa parceria leitora e autor ainda tem muito pano para manga.

Sinopse: Inacha é um povoado pacato e ordeiro da floresta amazônica, onde ninguém contesta o poder do regime militar recentemente implantado no Brasil. Porém, tudo muda quando um acontecimento grandioso é agendado: dois homens decidem se casar, décadas antes do mundo discutir os relacionamentos homoafetivos. Inspirado em fatos reais, Salomão Larêdo apresenta um romance contestador, que deseja disseminar o amor livre por todos os lugares e criticar a incompreensão e a violência comuns numa terra tão afastada da civilização.

De forma inusitada, forte, cruel e, por vezes, cômica, o enredo gira em torno de um casamento homoafetivo, na Amazônia, em plena década de 60. O regionalismo, também presente na obra de expoentes como José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, é uma marca registrada no livro. João Cabral de Melo Neto diz em uma de suas entrevistas:

“O regionalismo não é uma linguagem regional, que o inutilizaria, mas falar de problemas que estão mais próximos da pessoa que fala: a dor do homem, a alegria, as suas lutas e as suas belezas etc. Não, é claro, com a limitação de uma linguagem local, que inutiliza a expressão universal e a transmissão objetiva do conteúdo humano do poema ou do romance. (...) Apenas com aquele interesse intrínseco do humano, na valorização do humano. O que limita o regionalismo não é o tema de interesse circunscrito, mas a linguagem, com seus perigos de fixação que lhe poderá inutilizar a universalidade. (...) O que interessa é o problema do homem. Quando me bato pelo regionalismo é para mostrar, numa anedota, o local, os sentimentos comuns a todos os homens. O homem só é amplamente homem quando é regional. Se me tirar a estrutura ideológica do pernambucano, eu nada sou. Faulkner, por exemplo, é profundamente universal porque é regional e nacional.”

Pois é, o regionalismo traz identidade a universaliza, porque existe um enredo-problema, em outras palavras, uma confusão social que o autor explora e leva o leitor pra junto. Brasil. Ditadura Militar. Dois homens que se amam. Transexualidade.  ‘A sociedade amazônica é pluriétnica-cultural-religiosa.’. O jogo linguístico que inebria. E no andamento dessas particularidades, no vilarejo de Inacha, comunidade de Juaba, está Inajá e Inajacy, que procuram o Pajé para transformar um deles em mulher e casarem.  

“Preciso encontrar este homem que quebre meu encanto para me tornar mulher completa e ser uma pessoa; existir, quero existir, quero voltar a ser mulher. Já fui, me arrependo de ter sido e não ter percebido que era e agora quero voltar e não posso, não passo no teste, ó castigo. ”

Apesar do estranhamento local, o casamento torna-se um grande espetáculo, com direito a julgamento, e vários outros enredos são formados a partir da história de Inajá e Inajacy, como uma teia, interligadas. 

Diante disso, as críticas vão surgindo e trazem a transexualidade atrelada à mística da cultura amazônica nascendo de maneira tão particular e ao mesmo tempo contraditória, visto que o leitor se identifica com o particular criado pelo autor, mas, como dito anteriormente, é um particular universalizado, para além de uma bolha. Todos os elementos estéticos utilizados, que vão da disposição dos capítulos até a escolha da linguagem, casando com o momento histórico e geográfico, faz de todxs parte dessa teia.


30 comentários:

  1. Olá
    Eu não conhecia esse título, mas confesso que não faz o meu estilo literário, e como tal, não possuo interesse em ler, pelo menos não no momento.. De qualquer maneira, não tenho dúvidas de que é uma obra crítica, seja pelo fato da transexualidade ou sobre a cultura, e também pela linguagem, e portanto o leitor precisa estar atento ao contexto, né?! Gostei muito de ler sua postagem!
    Beijos, Fer
    www.segredosemlivros.com

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  2. Ainda não conhecia nem a obra, nem o autor, mas apesar de não fazer muito meu estilo a obra parece ser interessante e realmente demandar dedicação na leitura. Que bom que aproveitou a obra tão bem e seu post ficou muito legal :D

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  3. Oiii minha querida, como vai?
    Eu confesso que adorei muito tema abordado na história, mas o que me desmotivaria a ler é a questão de se dedicar, ultimamente minha atenção anda mínima.
    Beijinhos

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  4. Não conhecia o gênero, mas gostei bastante do tema abordado por ele, irei pesquisar um pouco mais e colocar na minha listinha, adorei sua resenha está de parabéns.

    Beijos

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  5. O tema abordado é mega pertinente, mas o que mais me chama a atenção neste livro é a questão folclórica e como essa realidade diferente, vai se encaixar na cultura local.
    Adorei sua resenha, achei bem técnica e completa
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

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  6. mulher, esse livro deve ser fantástico... fiquei besta com o enredo dele...
    já quero pra ontem *-*
    <3

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  7. Olá!
    Eu não conhecia nem obra nem autor.
    Mas me senti de cara atraída. E pelo seu entusiasmo parece ser muito bom.
    Indicação aceita com certeza.
    Bjs

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  8. Olá!
    Esse não é meu estilo de leitura favorito, mas me parece uma obra interessante, principalmente por abordar a transexualidade juntamente à mística da cultura amazônica.
    Não sei se leria a obra no momento, mas fica anotada a dica.
    Beijos!

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  9. Oii!

    Tanto o autor quanto a obra eram desconhecidos para mim. Achei bem interessante o tema abordado, então dica anotada.

    Beijos

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  10. Oi,
    Apesar do regionalismo presente no contexto, o tema abordado não despertou meu interesse pela leitura. Nada contra, é que o gênero literário não está entre meus preferidos.
    Bjos!

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  11. Nossa, nunca ouvi falar nesse livro, mas não faz meu tipo esse gênero e nem esse tema...
    Mas sua resenha ficou incrível, e acho que se algum dia eu tiver querendo ler algo pra fugir da minha zona de conforto, esse vai ser o livro pra isso.
    Ótimo post!

    Virando Amor

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  12. oie, nossa, eu nunca tinha ouvido falar no livro mas já me senti interessada. Gosto de obras que se passem no ambiente amazônico e traz um tema super interessante. espero vir a ler e espero que suas próximas experiências com o autor sejam boas.

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  13. NO conhecia o livro mas achei o enredo muito interessante e bom. Imagino todos os problemas que o casal enfrentou em plena década de 60. Já seria complicado pela época, ainda podemos acrescentar o forte machismo da região. Dica anotada.
    Bjs

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  14. Olá!
    Apesar de achar o enredo bem diferente do que estamos acostumados e bem interessante, o livro não me chamou tanto a atenção assim, então vou deixar essa dica passar.
    Beijos.
    http://arsenaldeideiasblog.wordpress.com/

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  15. Olá !!! Ainda não conhecia o autor nem essa obra !!!
    que bom que você finalmente conseguiu fazer a leitura do livro e compartilhar no blog
    e que venham mais obras como essa, ótima sua resenha !!! bjo

    http://blogaventuraliteraria.blogspot.com.br/

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  16. Eu adorei o enredo e o ambiente é suprr interessante, ainda não conhecia e adorei a história.

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  17. Olá!
    Ainda não conhecia esse livro, mas achei a temática bem interessante, pois não li, ainda, nenhum livro sobre casamento homoafetivo e acho que seria muito interessante. Gostei de o autor ter inserido uma parte cômica ao livro também.
    Fiquei feliz por ter sido sua primeira experiência com o autor e que tenha sido prazerosa.
    Espero que muitos outros livros dele te agrade.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

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  18. Olá, eu ainda não conhecia esse autor. Eu não curto muito esse tipo de leitura, mas ele me parece um bom livro, com um tema bem polêmico o da transexualidade. E eu ainda não tinha lido um história que fosse na Amazônia.
    Bjus

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  19. Oie, tudo bem? Que resenha maravilhosa! Me deixou super mega interessada nessa leitura, com essa premissa tão original e esses enredos que se formam. Acho que irei curtir! Dica anotadíssima :D E essa capa é linda demais!

    Beijos

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  20. olá, eu nunca tinha visto menção a esse livro. A premissa parece ser bem interessante, e seus elogios me deixam tentada a dar uma olhada. Li poucos livros que trazem a transexualidade como temática, por isso tenho curiosidade sobre o tema. Abraços

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  21. Oie
    Não conhecia a obra fiquei muito curiosa o tema muito me agrada eu gosto de livros que trazem essa temática LGBT esse parece ser bem interessante. Saber que esse livro é ambientado na década de 60 e com esse tema tão forte me deixou com muita vontade de ler afinal se o casamento homoafetivo causa tanto burburinho hoje em dia imagine na decada de 60. Adorei saber um pouco mais desse romance Homo(Ama)Zônico.
    Bju
    Mary Reis

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  22. Oie, tudo bem? Não tinha ouvido falar desse livro ainda e me interessei muito pelo tema que ele aborda, vou anotar a dica e procurar pra ler!

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  23. Olá Lilian,

    Adorei a resenha e fiquei super intrigada por esse livro, com certeza vou anotar a dica e espero ler em breve.

    Abraços,
    Cá Entre Nós

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  24. Olá Liliam tudo bem, O olho do boto tem um título bem singelo, mas trás uma história que muitos ainda não estão preparados para entender, eu acho a leitura válida para conhecer o autor, e claro saber como se desenvolve esse história, e como as pessoas agem diante do casamento homoafetivo. Bjs

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  25. Oi Lilian,
    Eu já conhecia o livro do catálogo da edittora e é uma das obras que me faz querer muito fazer a leitura dela, tanto pelas resenhas positivas que eu tive o prazer de ler, quanto pela temática que desperta muito o meu interesse.
    Beijos

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  26. Olá.

    Não conhecia esse livro muito menos o autor. Confesso que esse tipo de livro não é o que eu leio normalmente, mas quem sabe eu não leia mais p frente? Achei bastante diferenciado a trama e nunca li nada tratando do meio amazônico. Achei bastante bastante diferente a trama.

    Beijos!
    www.anebee.com.br

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  27. Olá, tudo bem?

    Não conhecia o livro e o autor, parece ser uma obra interessante, ao menos gostei da sua resenha. Porém, não é o meu estilo de leitura, então passo!

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  28. Olá, tudo bem?

    Sua resenha ficou realmente muito boa, dominastes muito bem as palavras. Achei o enrendo muito interessante, com um tema forte, tratado em um tempo um tanto conturbado de nossa história. Imagino que loucura é ser homo afetivo em plena ditadura militara, um ato de coragem. hahaha
    Embora eu tenha achado esse livro uma aposta muito boa, não sei se leria no momento, mas acho que vale anotar a dica. Então, muito obrigada.

    Ingrid Cristina
    Plataforma 9 3/4

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  29. Sempre gosto de ler tuas resenhas pelo tom científico e, aquele toque de simplicidade.
    Viajei na literatura ao citar autores regionalistas como Graciliano Ramos, a quem devoto minhas leituras.
    E concordo com vc! É próprio do regionalismo trazer esse tom de identidade e associado a terra.
    Mas o ponto que me tirou o chão é: como o relacionamento foi desenvolvido para essa época? Era tabu? Fiquei curiosa! Espero ter contato com esse livro.

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  30. Ainda não havia escutado falar desse livro, mas achei a ideia do autor muito interessante e gostaria de saber como a narrativa se desenvolveu e de que forma o autor contou esse romance levando em conta o período em que tudo se passa.

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, homossexualidade, violência sexual e alcoolismo. A escritora mantém um blog literário e está sempre bem informada sobre questões sociais que acontecem em nosso país. É defensora da tese de que todos são diferentes e merecem ser tratados com equidade. Ela adora escrever sobre temas que incomodam e diz não ter medo do preconceito. Trabalha no movimento social e acredita que a educação é capaz de trazer mudanças significativas ao país.

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