Resenha - A tortura como Arma de Guerra




06 novembro 2016



Leneide Duarte-Plon é uma jornalista brasileira que vive em Paris e escreveu A tortura como Arma de Guerra pela Editora Civilização Brasileira. Essa obra é um verdadeiro objeto de estudos sobre como os franceses exportaram o terrorismo de Estado para outros países, principalmente para as nações latino-americanas que entre os anos 1960 e 1980, instauraram os horrores da Ditadura com métodos de tortura para suas vítimas...

Há uma entrevista com um dos nomes mais polêmicos das forças armadas francesas: Paul Aussaresses, responsável pela tortura e morte de vários presos políticos na guerra da Argélia, bem como por treinar o Esquadrão da Morte. Declaradamente de Direita, também se proclamava anti-comunista e pró-americano, Aussaresses afirmou que 

"a tortura se justifica quando pode evitar a morte de inocentes."

Mas em sua mente doentia, os torturados faziam parte da classe trabalhadora, estudantil e independentista. 

Aussaresses publicou o livro Je n'ai pas tout dit em 2008, alguns anos antes de sua morte em que revela a maioria de suas táticas de treinamento e acontecimentos durante seu período como militar, inclusive de sua estada no Brasil como adido, onde fez palestras na Escola Nacional de Informação e foi professor no Centro de Instrução de Guerra na Selva em Manaus. 

A autora de A tortura como Arma de Guerra une em sua escrita jornalística informações importantes com um olhar historiador sobre episódios tão sinistros de nossa História. Sua obra denuncia a violência institucionalizada que o Brasil vivenciou no período da Ditadura Militar e que atualmente se manifesta através da repressão de um governo golpista, alavancado por manifestantes que gritam por intervenção militar e caça aos comunistas no auge de suas ignorâncias.

O livro traz referências bibliográficas, uma cronologia e mais entrevistas com pessoas que sobreviveram aos horrores das torturas realizadas nas ditaduras... Faz comparações com a política brasileira atual no que concerne ao estupro da democracia, quando em pleno vigor da ditadura, o país dos Direitos Humanos se alia aos militares brasileiros. Havia no país potenciais que interessavam aos franceses...

Em alguns capítulos é abordada a maneira de se usar a tortura como arma de combate, quem seriam os inimigos e como a influência francesa fez com que a figura do inimigo interno fosse representada por comunistas, intelectuais, operários e camponeses, bem como estudantes, artistas e líderes sindicais, que eram chamados de subversivos. Havia uma forte propaganda contra o comunismo, a fim de se incutir medo e ódio na população. Notícias de morte nos jornais eram publicadas antes da morte dos prisioneiros da ditadura. A lista de desaparecidos subia de forma assustadora. Familiares eram torturados física e psicologicamente a fim de delatar o paradeiro de seus entes procurados pelos militares. Inclua aí crianças e grávidas, que não tinham suas condições respeitadas pelos homens de alta patente...

Mídias como a Veja reportavam que o presidente não admitia torturas, numa tentativa ignóbil de enganar a população, que acreditava que o país estava prosperando... 



Uma das descobertas mais impressionantes durante a leitura do livro foi o capítulo sobre Rubens Paiva e Vladimir Herzog, 'desaparecido' e 'suicidado' durante a ditadura no Brasil, casos bem semelhantes com os que houveram na guerra da Argélia em 1957: Jean Moulin, morto sob tortura pela Gestapo teve sua morte atribuída por enforcamento na prisão, e o professor de matemática Maurice Audin foi tido como desaparecido por 'evasão'. Seu corpo, assim como o de Rubens Paiva, jamais foi encontrado... O modus-operandi dos casos ocorridos na Argélia foi o mesmo aplicado a essas duas vítimas da ditadura no Brasil, que chocou a população na época, e até hoje causa revolta por parte de familiares, amigos e quem ouve falar da história...

A arma como tortura de Guerra é um livro importante a ser lido e estudado, a fim de se entender o que houve no período da ditadura no Brasil, e claro – conhecer mais a fundo sobre a Guerra de independência da Argélia, que vitimou milhares de pessoas que lutavam para se ver livres do domínio francês... É um tapa na cara dos desinformados que acreditam nas mentiras da mídia golpista, em depoimentos falaciosos de pseudo-jornalistas/intelectuais e ignorantes políticos. Mas, acredito ser inocente demais de minha parte acreditar que seres ['leitores' interessados na política atual] desprovidos de cérebro operante reconheçam a importância do livro, ou que sua 'inteligência' possua os níveis mínimos de funcionalidade para interpretar bem a leitura da obra, os tais  que têm os fatos em mãos e ainda assim continuam a sustentar sua ignorância, pautada apenas por um sentimento de ódio propagado por uma Direita raivosa e sem escrúpulos, que mantém governantes claramente sujos e seus juízes 'heróis' igualmente corrompidos semelhante a Propaganda realizada contra os independentistas argelinos na década de 1950... 

Por fim, acho pertinente frisar sobre as entrevistas realizadas com os envolvidos nos processos de tortura e 'neutralização' dos interrogados [neutralização leia-se queima de arquivo, eliminação], como eles se evadiam de perguntas feitas por Leneide e outros jornalistas/historiadores, em que – por fata de argumentos plausíveis – fugiam do tema da entrevista ou davam respostas falaciosas e ao fim, acabavam confessando as arbitrariedades cometidas, após tentativas falhas em esconder a verdade...

"Era raro que prisioneiros interrogados durante a noite se encontrassem ainda vivos de manhã. Tendo falado ou não, eram geralmente  neutralizados. Era impossível enviá-los à Justiça. Eles eram muito numerosos e a engrenagem judiciária teria ficado emperrada.".



15 comentários:

  1. Cacete, que resenha, Val. Além de uma aula de história, você chutou o pau da barraca, gostei mesmo! Tenho medo de gente quando sua fonte de informação é a revista Veja e afins...

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  2. Olá! Esse não é o tipo de livro que eu leria, mas é muito triste reconhecer que ainda existem lugares onde a tortura é utilizada. Pode ter certeza que aqueles que a utilizam certamente darão inúmeras justificativas para isso.
    Além disso, é medonho ver o poder que a mídia exerce sobre as pessoas e o quão manipulável a massa é. Precisamos educar urgentemente as nossas crianças para nos livrarmos dessas amarras.
    Beijos,
    sigolendo.com.br

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  3. Menina me segura aqui por favor, cai da cadeira! Realmente você se supera em cada resenha, tão verdadeira que a sinceridade nos revela tanta coisa e nem vou comentar sobre usar a veja, isso acaba com todos.
    Abraços

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  4. Olá, tudo bem?
    Achei bem interessante sua resenha, o livro é de fato importante para mostrar uma parte da história que diversas vezes fica oculta. Eu fico me questionando como existem pessoas que ainda acreditam na Veja que sempre foi totalmente manipulada. Ótima resenha!
    Abraços

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  5. Oi!!
    Como eu não conhecia esse livro, só de ler o titulo já fiquei louca para ler. Gosto de livros com temáticas assim como essa.
    Eu nunca li nenhum livro sobre a Ditadura Militar, imagino que deve ser uma leitura pesada em alguns momentos, mas muito informativa.
    Vou anotar o nome para conseguir esse livro, amei a dica.
    Beijão!

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  6. Oi,
    Voltei à sala de aula, lendo a sua resenha. Não fui uma boa aluna em História, mas as suas palavras despertaram meu interesse pelo tema desenvolvido nessa obra. Quantas informações sobre o período da ditadura!!
    Abraços.

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  7. Ola, tudo bem? Eu gosto de de livros assim, que trazem um "Q" de realidade e nos faz refletir. Adorei a sua resenha e com certeza anotei a sua dica. Beijos

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  8. Realmente despertou minha curiosidade, que resenha linda, amei.

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  9. Olha, muito interessante o conteúdo desse livro. Gosto de ler histórias reais sobre as guerras, mas sempre fico arrepiada e me sentindo mal. Só acho que temos que enfrentar isso, né? Precisamos conhecer os acertos e principalmente os erros do que rolou. O problema é que eu sempre sinto que é super direcionado e pessoal... sabe, nunca parece que eu peguei a verdade.

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  10. Que resenhaaa!
    Confesso que de inicio não me interessei pela obra, mas depois de ler a resenha ele passou a chamar minha atenção. Dica anotadaaa!

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  11. Mas gente!!!
    Que resenha pesada, bem explicativa e forte.
    Foi uma verdadeira aula ler sua opinião sobre o assunto. Eu gosto do gênero, mas não tenho lido muito e esse livro com certeza chamou minha atenção.
    Parabéns.

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  12. Oii,

    É uma leitura bem fora da casinha, não?? Mas achei interessantíssima, ainda mais com todas questões apontadas em sua resenha. Fiquei bem interessada em ler esse livro. Parabéns.

    beijos

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  13. Oi Val, esse livro que você nos apresentou é uma ótima dica de leitura para o período em que vivemos neh. Saber um pouco mais da história do nosso país e do mundo, saber o que de fato aconteceu na ditadura, etc... Adorei sua resenha, foi bastante rica em informações, pois eu adoro pegar essas referências e pesquisar mais sobre elas, fiz até umas anotações e depois vou procurar o livro também. Adorei. Bjs

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  14. Olá! É uma leitura que me deixou curiosa e despertou meu interesse.
    Gostei bastante da sua resenha, da pesquisa e análise sobre o tema.
    Assim que tiver oportunidade estarei lendo, bjooo

    http://blogaventuraliteraria.blogspot.com.br/

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  15. Oi Maria, vamos combinar que isso não foi apenas uma resenha, assim como este livro não é apenas um livro. Deve ser uma leitura densa e com grandes esclarecimentos. Infelizmente a verdade aqui e para poucos estômagos, mesmo assim de crucial importância.
    Bjs

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