Resenha – A máquina performática




26 abril 2017



A Máquina Performática: a literatura no campo experimental, de Gonzalo Aguilar e Mario Cámara, 190 páginas, Editora Rocco, é uma visão crítica acerca do corpo, espaços e sonoridades na literatura brasileira, ou como traz a introdução os ‘signos desprezados’ na literatura nacional.

“‘O Corpo’, afirma Michel Feher, ‘não é um lugar de resistência diante de um poder que existe fora dele; dentro do corpo, ocorre uma tensão constante entre mecanismos de poder e as técnicas de resistências’ (apud JONES, 2006, p. 22). O mesmo ocorre com as vozes, aspecto sonoro ao qual a crítica literária não deu atenção em sua obsessão pelos textos e pela escrita. Os textos também falam, gritam ou murmuram.”

Se o corpo é o agente principal dessa crítica, não há limites para seus significados, no entanto, é, tecnicamente, algo pouco de pouco debate ou estudo no âmbito literário. Dividido em quatro capítulo – Nudez sem vergonha; Mapas acústicos, constelação sonora; Espaço: táticas de ocupação e, por fim, A máscara da pose – os autores trazem um novo panorama histórico, geográfico e sensorial do que estava à margem pela crítica.

“Na máquina performática, qualquer coisa pode se transformar em signo. Um gesto, um tom de voz, um corpo que se exibe, até um perfume (...)”

Ou seja, isso significa entender os efeitos do aparentemente não visto. E que, porém, deixam marcas em quem dialoga.

“Isso supõe uma dificuldade porque o crítico literário é treinado para lidar com o texto, é educado para lançar-se sobre a escrita e é frequentemente indiferente ou cego às práticas. A ideia é convocar a performance para mostrar que sua presença transforma as leituras possíveis de uma obra.”

Quer dizer, é provocativo inclusive ao próprio crítico, que se lança a simbologia de romper estruturas, recriar, reinventar, re-olhar. Obviamente, se é provocação, nada mais digno que iniciar com a Nudez sem vergonha. “O que um corpo pode fazer no corpo”.

Em Nudez sem vergonha os autores trazem o panorama do corpo nu desde a chegada dos portugueses, quando se depararam com as vergonhas expostas dos índios, os escritos produzidos à mão nos ‘Pornopoemas’, o Movimento Arte Pornô, Tropicalismo, Dancin’s Days,  até Jorge Amado e Nelson Rodrigues, sem esquecer de pontuar como o capitalismo se apropria disso.

nisso eu sou primário
amor para mim
vem do caralho
p[aulo]. L[eminski]

nisso eu sou careta
amor pra mim
vem da buceta
alice
(1984, p. 57)

O capítulo Mapas acústicos, constelação sonora ressalta o novo significado diante da performance sonora, evidenciando, por exemplo, o trabalho de Arnaldo Antunes e João Gilberto Noll “As leituras públicas de Noll proporcionam outras interpretações para seus textos, descobrem em sua prosa caudalosa e dinâmica as marcas desse farfalho”.

O terceiro capítulo apresenta a ocupação dos espaços, como no caso da chegada dos portugueses, e a construção e reconstrução dos espaços urbanos, museus, públicos: “O corpo que recita não só se coloca como testemunha de uma vida (e um pertencimento social), mas também dota os textos de inflexões coloquiais, gestos de rua e, frequentemente, um ritmo de rap e hip-hop que combina oposição e pertencimento”.

Por fim, A Máscara e a Pose e os ditames da sociedade moderna onde se encontram novas tecnologias, o escritor e o mercado literário.

“A máscara precisa de discurso. Ela é constituída por uma textualidade que inclui não só a obra poética ou ficcional, mas também todo o texto ou o discurso público do escritor. A pose, em compensação, envolve o corpo: a vestimenta, os gestos, certos trejeitos, a frequentação de determinados lugares, na medida em que esses aspectos adquiram um estado público. ”

Apesar de curto, A Máquina Performática traz a luz do debate temáticas necessárias. Dá voz ao que não era dito, ouvido e pensado. Com uma linguagem fácil e de rápida leitura, pode e deve ser lido por estudantes, professores, escritores e interessados de forma geral em literatura. Faz parte da coleção Entrecríticas organizada pela tradutora e professora de teoria literária Paloma Vidal. Eu quero todos os livros da coleção.

37 comentários:

  1. Olá,tudo bem?
    Sim é lindo esse livro.
    Traz várias reflexões sobre como vemos e como fazermos o corpo de ser visto.
    Antigamente o corpo era algo mais sensual hoje é mais comum inclusive ou principalmente na literatura a vulgarização do corpo. Amei conhecer a obra e assim como você fiquei interessada na coletanea.
    Parabéns pela resenha reflexiva e pela escolha da obra resenhada
    Beijos

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    1. Desculpe se me expressei mal na resenha, acredito que por um erro meu, você deve ter ficado com essa impressão, mas o livro não traz reflexões sobre como vemos o nosso corpo, muito menos a ideia de vulgarização do corpo.

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  2. Olá!
    Interessante a forma de retratarem o corpo e colocarem através das palavras.
    Nunca li algo direcionado a esse tipo de leitura que me parece abordar de forma mais técnica.
    Certamente daria uma chance se tiver oportunidade de encontrá-lo para leitura.
    Beijos!

    Camila de Moraes.

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    1. Exato, Camila, o livro traz uma abordagem técnica sobre a literatura e o corpo

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  3. Oiii Lilian, tudo bem?
    Eu realmente não conhecia esse livro e ele parece trazer um assunto que muitas vezes ignoramos, agora nesse livro você me apresentou uma forma técnica do corpo e literatura, leria com toda certeza.
    Beijos

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    1. Oi, Morgs!
      Para você que é estudante de Letras, se eu não estiver enganada, é uma leitura recomendável.

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  4. Olá!
    Não conhecia o livro, mas já amei a sua indicação. E sua resenha me deixou com vontade de conhecê-lo um pouco mais.Gosto de livros que abordas temas diferentes aos que estou acostumada a ler.
    Obrigada pela indicação.
    Beijos
    Cássia Pires

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  5. Oii
    Nunca ouvi falar desse livro, achei muito interessante sobre o que você falou, ideias temáticas , adoro ficar por dentro de tudo, esse livro me encheu os olhos, fiquei super curiosa para lê-lo, vou anotar a dica, gosto de livros assim, apesar de nunca expressar rsrs, mas gosto.
    Amei sua resenha e obrigada pela dica!
    Abraços;**
    http://FebredeLivro

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  6. Fiquei super curiosa com a história. Já havia lido algo sobre o livro mas não com ele grau de profundidade. Parece aqueles livros que te deixam completamente reflexiva e fazem você reavaliar sua vida.

    Bjos

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    1. Reavaliar vida,não sei, mas reavaliar a obra literária, é possível

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  7. Olá!
    Eu só fico imaginando daqui umas décadas depois de Máscara e a pose que é bem o que hoje vivenciamos, estamos ali lado a lado com o escritor, o mercado literário e temos ferramentas pra isso e posso até estar falando bobagem mas essa publicidade toda nem sempre causa um bom efeito, eu gostava de idealizar que escrevia. rs
    Acho que procurar ler e entender. Bjs

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    1. Concordo com você. Eu também me imagava

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  8. Oi flor! Que resenha maravilhosa foi essa!? Eu já ouvi falar deste livro algumas vezes, mas nunca tive a oportunidade de lê-lo. Bom, espero poder ter esta oportunidade. Beijos.

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  9. Ooi, tudo bem?
    Que resenha maravilhosa <3
    Achei super interessante a forma com que eles retrataram o corpo e colocaram isso através das palavras, simplesmente curti de mais isso!
    Não conhecia p livro mas gostei muito da proposta!
    bjos

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  10. Olá, Lilian! Tudo bem?

    Adorei a sua resenha, eu não conhecia o livro e parece ser de fato uma excelente leitura. É interessante a forma que retratam o corpo por meio das palavras. Achei bem interessante a proposta. Dica anotada!
    Beijos

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  11. Oi Lilian, desculpe se entendi errado, mas um livro que mostre o uso ou a forma que a literatura faz do corpo me parece interessante, ainda mais que une textos de diferentes autores. Ou seja, podemos ler e refletir em cima de situações e pontos de vistas diferentes.
    Bjs Rose

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    1. Sim, você está certa, muito certa, quer dizer, interpretei da mesma forma que você e além do que disse, ele ainda traz um olhar para aquilo que não era visto, analisado, ou seja, leitura que enriquece.

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  12. Estou vendo bastante resenhas sobre esse mesmo tema: o corpo. Esse protagonismo é interessante e válido, embora perturbador. Não pode gerar um excesso de egocentrismo?
    Mas, como análise de obras literárias, vemos está mudando o nosso modo de lidar e falar sobre o corpo, e isso é genial.
    Bjsss

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    1. Fiquei curiosa sobre como geraria egocentrismo, você poderia me explicar, pois realmente sua colocação despertou curiosidade

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  13. Oie,
    Já vi um post aqui no blog que falava de um livro semelhante à esse, só que o assunto era o corpo e tudo que ele sofre durante a vida até a morte(posso estar enganada, mas tenho quase certeza de que vi esse livro aqui). Achei a proposta do livro muito interessante e a forma como os capítulos se dividem também é bem legal. Acho que não farei a leitura por agora, pois é algo muito diferente do que estou procurando pra ler no momento.Acredito que seria uma experiencia muito interessante lê-lo. Vou anotar a dica.
    Beijos
    Blog Relicário de Papel

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    1. Sim. Você está correta ^^
      A diferença é que o outro é uma ficção e esse sobre teoria literária. Mas os dois com o corpo como protagonista. Obrigada pela lembrança

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  14. Olá, tudo bem? Adorei o livro. Não conhecia ele, nem a temática e acho bem interessante isso. Gostei dele ser curto e ter uma linguagem fluida. Dica anotada!
    Beijos,
    diariasleituras.blogspot.com.br

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  15. Achei um livro interessante e bem diferente do que eu estou acostumada a ler. Sua resenha me despertou uma curiosidade com a obra.

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  16. Olá, adorei conhecer um pouco mais sobre essa obra. Achei a temática central bem interessante e gostaria de conferir também.
    Dica anotada!

    Beijokas da Quel ¬¬

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  17. Oii, tudo bem?
    Não conhecia esse livro, mas parece ser muito interessante. Achei bem criativa a ideia, acredito que mude nossa visão sobre o corpo depois da leitura. Dica super anotada aqui.
    Bjos.

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  18. Pelo conteúdo retratado, de fato, essa deveria ser uma obra ao menos sugerida por educadores do ensino superior. Sua resenha foi muito boa, eu duvido que conseguiria ler uma obra assim e conseguir falar direito sobre ela. Acho que ela tem o potencial pra gerar boas discussões em sala de aula, despertar interesse no estudo da intertextualidade e da formação dos signos.

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  19. Oii
    Pela sua resenha senti que não é uma leitura para mim, na bem da verdade lembrei um pouco dos livros que lia na faculdade e que eu não gostava, hahaha
    Passo a dica.

    Vícios e Literatura

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  20. Confesso que não conhecia a obra, ou o autor, porém fiquei com vontade de realizar a leitura. É bem diferente de tudo que leio, e as vezes é bom sair da rotina de gêneros de livro. Sua resenha está muito boa, explicando tudo bem certinho. Parabéns!

    Beijos,
    www.paginasincriveis.blogspot.com.br/

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  21. Com você elogiando desse jeito até eu quero essa coleção gata kkkkkk. Gosto assim corpos além da nudez e a escrita além de tudo :3 ou eu boiei mas foi assim que compreendi kk.

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  22. Oie
    quanto elogio maravilhosos, não leio esse tipo de gênero mas já quero depois de ler sua resenha hahaa gostei muito dos pontos ressaltados

    beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  23. Oi,essa semana vi outras postagens de livros assim. Apesar de ter gostado da sua opinião, não um livro que me atrai.
    Hoje deixo a dica passar.

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  24. Olá,
    Creio que o livro seja um tanto quanto poético para mim. Me deu a impressão de algo abstrato mas que envolve coisas reais. Não sei se eu conseguiria entender a profundidade do livro, mas gostei da proposta que ele traz.

    http://euinsisto.com.br

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  25. Olá,
    Amo visitar seu blog, pois sempre encontro obras diversificadas e que na maioria das vezes foge bastante da minha zona de conforto. São mais críticas e apresentam abordagens distintas das que estou acostumada.
    Desconhecia a obra, mas achei interessante a forma mais crua que aborda o corpo, de modo que realmente faz a representação daquilo que muitos querem falar e poucos o fazem.
    Espero que consiga ter todos os livros da coleção!

    LEITURA DESCONTROLADA

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  26. Oi, tudo bem?
    O livro é diferente do que costumo ver por aí, mas não é uma leitura que eu faria no momento.
    Bjs

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  27. Olá!
    Confesso que não conhecia o livro e fiquei curiosa para saber como é a escrita dos autores. Não sou de ler livros desse temas mais é sempre bom sairmos da nossa zona de conforto e ler coisas novas.
    dica anotada.
    Beijinhos!

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, homossexualidade, violência sexual e alcoolismo. A escritora mantém um blog literário e está sempre bem informada sobre questões sociais que acontecem em nosso país. É defensora da tese de que todos são diferentes e merecem ser tratados com equidade. Ela adora escrever sobre temas que incomodam e diz não ter medo do preconceito. Trabalha no movimento social e acredita que a educação é capaz de trazer mudanças significativas ao país.

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