Resenha - Hilda Hilst - A Mulher que queria ser lida




03 julho 2017
by imagem  - mundodek


“É muito chato escrever para ninguém”

Hilda Hilst viveu um paradoxo entre críticos, leitores de forma geral e as grandes editoras. Se por um lado os críticos aclamavam seus textos e os prêmios literários se faziam presentes, por outro, a baixa vendagem de seus livros e a classificação de literatura difícil a tira do campo de interesse de grandes editoras.

Não é segredo, que em vida, a autora dedicou seu tempo a ser lida pelo grande público. Porém, isso não significaria escrever para o mercado. Com uma obra sofisticada, rebuscada e transgressora que passou por diversos gêneros, prosa, poesia, peças, etc., ela também escreve a escandalosa e performática tetralogia obscena: O caderno rosa de Lori Lamby, Contos d’escárnio, textos grotescos, Cartas de um sedutor e Bufólicas. O teor dessa tetralogia é uma ferrenha crítica ao mercado editorial e uma forma de chamar atenção dos leitores.

“De vez em quando ou uma espiada e digo para mim mesma: Hildinha, você escreve muito bem, mas só você é que sabe disso.” (HILST, 1968, trecho de Carta de Hilda Hilst enviada a Clélia Piza.)

Recentemente, a Editora Companhia das Letras, ao publicar Da Poesia, de Hilda Hilst, dá a autora o devido crédito, quase uma sensação de ‘descanse em paz’. Revivendo-a. Imortalizando-a. Também dá ao leitor a possibilidade de render-se àquela que por anos ficou conhecida como a maldita, resignada ao ostracismo.

“Não é que eu queira uma aceitação do público. Mas é que quando a gente vai chegando à velhice como eu, com setenta anos, dá uma pena ninguém ler uma obra que eu acho maravilhosa. (...)” (Hilda em entrevista ao Suplemento Literário de Minas Gerais, 2001)

Palavra, vazio, misticismo, morte, vida, solidão, amor, erotismo, loucura, efêmero, são esses alguns dos elementos atemporais que constituem a poética hilstiana. Organizada de forma cronológica, as fases de ruptura de um feminino jovem, adulto e ancião seguem o rastro dessa poesia, Hilda aborda o eu interior que reside no ligeiro espaço de tempo entre nascimento e morte, sem, no entanto, deixar de explorar a inexorabilidade desses dois extremos, nascimento e morte.

VI

Água esparramada em cristal,
buraco de concha,
segredei em teus ouvidos
os meus tormentos.
Apareceu qualquer cousa
em minha vida toda cinza,
embaçada como água
esparramada em cristal.
Ritmo colorido
Dos meus dias de espera,
duas, três, quatro horas,
e os teus ouvidos
eram buracos de concha,
retorcidos
no desespero de não querer ouvir.

Me fizeram pedra
Quando eu queria
ser feita de amor.
(Presságio – 1950)

Presságio (primeiros poemas - 1950), reúne 21 poemas e representa a consciência mais jovial, experimentada, desamparada, “Me fizeram pedra/ Quando eu queria /ser feita de amor”. Uma inquietação com os mistérios da existência, por exemplo, o poema VII, página 23, “(Não sei por que Maria/ quer compreender/ muito, demais/ a vida do suicida./ E Maria vai acabar/ se fartando da vida.)”.

Júbilo, Memória e Noviciado da paixão (1974), que reúne dez poemas é o início do fim dos medos, um eu que transborda, mas necessita do outro.  Assombrado, se reconstrói em cada poema, pulsando vida e morte, fragmentando-se, dessa forma, mantendo-se inteiro, absoluto. Essa reconstrução do eu pela necessidade do outro, beira à imortalidade pelo ciclo, quebra-refaz-desfaz.

I

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse.

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

Tal como Shiva em que o processo energético é a inconstância, o irreversível que rompe estruturas para se restabelecer, “Não é apenas a vaidade de querer/ que aos cinquenta/ Tua alma e teu corpo se enterneçam/ Da graça, da justeza do poema. É mais./ E porisso perdoa todo esse amor de mim/ E me perdoa de ti a indiferença.” (Poema X, p. 237).

Da Noite (1992) traz uma reconciliação com a experiência, a anciã, uma nova experimentação poética, que na prática beira ao nostálgico.

III

Vem dos vales a voz. Do poço.
Dos penhascos. Vem funda e fria
Amolecida e terna, anêmonas que vi:
Corfu. No Mar Egeu. Em Creta.
Vem revestida às vezes de aspereza
Vem com brilhos de dor e madrepérola
Mas ressoa cruel e abjeta
Se me proponho ouvir. Vem do nada.
Dos vínculos desfeitos. Vem dos ressentimentos.
E sibilante e lisa
Se faz paixão, serpente, e nos habita.

O domínio do desconhecido adjacente, revelando a ordem natural das coisas. Simples e prolixa. Perturbadora e inebriante. Impossível dissolver diante da vida. Impossível não se alinhar à morte. Hilda estava certa, como alguém pode não ler algo tão maravilhosos? Como alguém pode não querer vida que caminha? Como alguém pode não viver morte? O amor, o fluxo das coisas, o impossível que acontece, a esperança na busca do eu interior, uma hemorragia alucinada de esgotamento. Essa é Hilst maldita por não ter sido lida, mas se lida, ‘a nós-entendida’.


A poesia hilstiana é mais que um rito de passagem, é a vida que se prolonga em versos. É o vazio preenchido de inconsciente que se desvela, que no fundo não é oco nem cheio, mas um compromisso místico, sagrado e profano. Da Poesia não é uma obra que o leitor abre, mas um livro que se abre no leitor, lento ou abrupto, cruel e libertador, ousado, sem pedir licença. Além de reunir a poesia completa de Hilda, escrita no período de 45 anos, o posfácio é um dedilhar na intimidade dessa maldita-necessária e grande nome da literatura. 

41 comentários:

  1. Hilda basicamente é a mulher da sua vida né? Você falando da obra ela não me soa tão assustadora mas sei lá tu é meio doida, tu lê uns trem q eu não entendo direito, mas gostei da resenha e vc me deixou curiosa em conhecer a escrita dela <3

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. hahahahahahahahaha se deixa incendiar por Hildinha, moça

      Excluir
  2. Olá Lilian, tudo bem?

    Menina, eu até tento ler poesia, acompanhar os grandes escritores do gênero, mas não funciona. Eu acabo apenas usando poemas quando explico noções de versificação aos meus alunos do ensino médio. Mas mal vejo a hora de isso terminar, rs.

    Beijos

    ResponderExcluir
  3. Tenho muita vontade de ler Hilda, confesso que tentei O caderno rosa e fiquei muito chocada e parei a leitura (?) mas um dia vou recomeçar e tentar meu máximo, afinal, a escrita dela me atrai muito! <3

    Beijinhos,
    Livros que Li

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você começou logo pelo Caderno Rosa rsrsrsrsrsrs

      Excluir
  4. Oi. Tudo bem?
    Ainda não conhecia esse livro. Eu achei o título incrível. Eu nunca foi de ler poesia, mas ultimamente tenho pegado alguns livros para ler e tem sido uma ótima experiência. Achei muito bom as poesias destacada por você aqui no blog. A escrita da autora é muito boa. Vou anotar aqui, pois achei muito pontos positivos. Com certeza é uma boa leitura.

    Abraço!

    ResponderExcluir
  5. Vou concordar com a Paac ali em cima: você lê uns trens que eu não entendo, hahahaha. Acho a poesia bonita, mas nem sempre entendo muito, confesso.
    Beijos
    Mari
    Pequenos Retalhos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hauhauhau Mari, sua linda, vem cá e vamos ler todas juntas a Hilda é amor.
      Obrigada pelo comentário 💙💙💙💙💙💙💙

      Excluir
  6. Eu conheci a autora através das suas postagens, nunca li nada dela mas tenho muita curiosidade. Eu gostei bastante da tua postagem e de conhecer um pouco (muito) sobre a vida dela.

    ResponderExcluir
  7. Oi tudo bem?
    Não conhecia a autora mas me interessei pela vida dela, vou procurar outros livro dela e até mesmo a trilogia mas esse não é um livro que gostaria afinal poemas não são meu gênero predileto.

    Beijos

    ResponderExcluir
  8. Olá, tudo bem?

    Não gosto muito de ler poesias, então hoje sua dica não me atraiu.

    Beijos

    ResponderExcluir
  9. Boa tarde, gostei da resenha, estou curiosa pela leitura.

    ResponderExcluir
  10. Olá Lilian!
    Se não fosse por você postar coisas sobre a Hilda jamais saberia quem era..haha.
    A obra me parece ser impecável, mas confesso que tenho uma coisa que não flui quando leio poemas, poesias, crônicas..enfim.
    Fico contente de conseguir pelo menos passar por algumas leituras desse estilo aqui no seu blog. Afinal, cultura nunca é demais.
    Beijos!

    Camila de Moraes.

    ResponderExcluir
  11. Oi Lilian, ainda não tive oportunidade de ler nada da Hilda, e fico feliz que a Cia tenha trazido este livro, que como você diz, é como um tributo para autora. Gostei do poema que você transcreveu.
    Bjs, Rose

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Quando ler, diz o que achou ♥♥♥♥♥

      Excluir
  12. Olá! A sinceridade dela é atípica, visto que a maior parte dos escritores mantêm uma atitude blazê sobre a receptividade às suas obras. Bukowsky, por exemplo. Amei os trechos que você trouxe e agora quero uma obra completa dela.
    Beijos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ela era ácida e adorável 💙💙💙💙

      Excluir
  13. Olá! Tudo bom/
    Parece ser um livro incrível, contudo tenho que dizer que poesia não é bem meu estilo, mas acho muito bacana e quero um dia aprender a apreciar mais, por está razão gostei muito do post, pois me apresenta um livro que parece ótimo para me jogar nesse gênero literário.
    Beijos.

    ResponderExcluir
  14. Oi Lilian!
    Eu não conhecia essa autora, mas pelo o que você contou dela, me deu vontade de ler mais sobre as obras da autora. (:

    ResponderExcluir
  15. Olá!
    Gostei muito do post e poder saber mais sobre Hilda. Ainda não tive a oportunidade de ler nada dela, mas após esta resenha tão apaixonada, fiquei bastante interessada em conhecer a escrita dela.

    ResponderExcluir
  16. Gente, onde que eu tava que não conhecia essa mulher? Já estou apaixonada antes do tempo.
    Confesso que não sou muito de poesia, mas de vez em quando é um remédio que a alma precisa, não é mesmo? Gostei bastante dos que você colocou aqui e agora estou triste por ela ter ido e não recebido tudo que merecia. Um ótimo tributo este da Cia.
    Bjs

    ResponderExcluir
  17. Oii, tudo bem?
    Eu ainda não conhecia essa autora e nenhuma dessas poesias, mas achei seu post super bacana e ele me inspirou a procurar mais sobre a autora. Pode ter certeza que esse livro está na minha listinha de desejados.

    ResponderExcluir
  18. Hey!
    Eu realmente não conhecia a autora mas ler você falando dela com tanta paixão fez com que eu criasse um laço. Particularmente não me atrai muito pela obra, mas acho que é por ser novidade. Vou dar mais uma olhadinha por aí.
    Beijos.

    ResponderExcluir
  19. Olá !!! Ainda não conhecia a autora e gostei bastante do seu post.
    Muito bom você compartilhar esse trabalho.
    sucesso, bjooooooooo

    ResponderExcluir
  20. Oie não conhecia a autora, gostei bastante da resenha
    bjs

    ResponderExcluir
  21. Oie amore,

    Nossa que lindeza!!
    A Editora Companhia das Letras sempre nos fazendo felizes com suas publicações né!
    Adorei!

    Beijokas!

    ResponderExcluir
  22. Eu até que gosto de poesia, mas atualmente não estou nessa vibe,mas vou anotar pois com certeza vou querer ler no futuro. Bjs

    ResponderExcluir
  23. Olá!

    Não a conhecia, mas é uma pena que seu reconhecimento só tenha vindo depois da morte. A Companhia sempre arrasa com publicações assim!

    ResponderExcluir
  24. Olá,

    Não conheço a autora, porém sei o como é difícil ver uma história não tendo o reconhecimento que deveria, por conta de vendas :/ Nunca li nada da autora, então não sei o que esperar de suas obras, pela sua resenha ficando nítido o quanto você gosta dela, espero conhecer a escrita dela e quem sabe me encantar.

    Beijos,
    entreoculoselivros.blogspot.com

    ResponderExcluir
  25. Oi!
    Não conhecia a autora e nem sua obra, mas me interessei depois de ler suas considerações, pois gosto muito de poesia. Pretendo conhecer a escrita da autora em breve. Dica anotada!

    Beijo

    ResponderExcluir
  26. Oi, tudo bem?
    Eu não conhecia esse livro ainda e confesso que não sou muito fã de poesia, por essa razão não fiquei lá tão animada com sua dica, sabe? Mas deu para ver que se trata de uma boa obra que vale a pena para quem curte o gênero.

    Beijos :*

    ResponderExcluir
  27. Ainda é uma meta da minha vida ler algo da autora, mas sempre fico postergando a leitura.
    Beijos

    ResponderExcluir
  28. Olá, tudo bem?
    Quero muito ler algo da autora, mas ainda não tive a oportunidade em fazer.
    Não sou fã de poesias, mas me interessei muito pela forma que retratou a leitura.
    Um beijo.

    ResponderExcluir
  29. Oie
    uau parece ser uma leitura extremamente profunda, daquelas que nos fazem refletir e nos tocam, adorei a dica apesar de não ser o que costumo ler

    beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  30. Boa noite Lilian,

    Como já mencionei aqui não leio muito poesias, mas admiro demais e esse livro para os não e os não fãs de poesia e excelente.

    http://devoradordeletras.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  31. Perdi o costume de ler poesia, mas me encantei com essas que você separou no post. Fiquei com muita vontade de ler mais, encantadoras!

    ResponderExcluir
  32. Olá Lilian,

    Logo que comecei a ler sua resenha, fiquei curiosa e achei muito interessante a Companhia das Letras, trazer essa obra em uma nova edição, a fim de imortalizar essa autora. Eu confesso que não leio poesias, mas ainda assim, fiquei curiosa para conhecer melhor essa obra, principalmente quando assuntos tão diversos e impactantes são expressos em seus textos.

    Abraços,
    Cá Entre Nós

    ResponderExcluir
  33. Olá!
    Não sou muito fã de poesia, contros ou crônicas. Mas fiquei feliz em saber que depois de tanto a autora lutar, mesmo após a morte ela foi reconhecia por uma grande editora. Desejo todo sucesso ao seu livro e que agora o grande público a conheça.
    Beijinhos!

    ResponderExcluir

O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 

SKOOB

Arquivo do Blog

Direitos autorais

Copyright © 2015 • Poesia na alma