Resenha - Ofício de escrever




13 agosto 2017




Em Ofício de Escrever, Editora Rocco, 175 páginas, Frei Betto apresenta várias facetas do processo de escrita, como pode ser problemática, distorcida, crítica ou libertadora, inclusive, espiritual: “Se eu quiser falar com Deus/ Tenho que ficar a sós / Tenho que apagar a luz / Tenho que calar a voz/ Tenho que encontrar a paz/ Tenho que folgar os nós.”.

Autor de sessenta livros, Frei Betto estudou jornalismo, antropologia, filosofia e teologia. Com uma vasta experiência na Cultura, Direitos Humanos, no Movimento Social, na literatura – ganhou o prêmio Jabuti em 1982 – ele propõe um olhar sobre o que norteia a vida humana e a arte da escrita. Isso sem extrapolar os limites entre produção e crítica social.

Tenhamos sempre presente, entretanto, que a literatura não tem que ser de esquerda ou de direita, a favor ou contra o governo vigente. Tem que ser bela, obra de arte, signo estético, sem o que perde valor. Não se exija, portanto, literatura engajada, e sim de qualidade, capaz de suscitar em nós, leitores, um novo olhar sobre o real. Do escritor, sim, pode-se esperar engajamento, compromisso com a justiça, empenho contra a opressão. Até porque, em sua obra, ele nada mais faz do que nos abrir a outros mundos possíveis, através do imaginário que não conhece limites. Seu campo de trabalho é simplesmente o infinito.”

Além disso, o autor reconhece a escrita como parte da reconstrução do ser. Do individual e do coletivo. Faz um resgaste histórico de trilhas e caminhos que diversos autores traçaram. “Deveriam haver mosteiros nas montanhas onde os escritores pudessem se refugiar para criar”. Apesar de cristão, ele não santifica, do ponto de vista institucional, mas espiritualiza o ato da criação, quando o autor/poeta recita um monólogo com todas as vozes, interior e exterior, que por vezes grita, por vezes, silenciam.

Toda poesia de qualidade é polissêmica. É verso que faz emergi nosso reverso. É canto que encanta, desdobra em múltiplo o nosso ser e nos induz a encontrar aquela pessoa que realmente somos e, no entanto, em nós reside como um estranho que provoca temor e fascínio.”


Aquele que produz arte não tem obrigações, mas se vê no interminável estado caótico da criação. Deus criou o mundo em seis dias, no sétimo, contemplou, tal qual acontece, tão inconstante, incoerente, horizontal e contemplativa com quem se desnuda no oficio da escrita. Frei Betto também reconhece o poder da literatura, da leitura e do leitor como mantenedores da arte, de perpetuar a literatura, e a apropriação da obra pelo leitor. Este é sem dúvidas um livro para escritores, mas, principalmente, para quem dialoga com a arte pelo espírito. 

14 comentários:

  1. Amo livros que trazem esse tipo de tema para livros. É super importante ler sobre escrever, principalmente pra quem escreve muito, quem mexe com a escrita. Por isso que sempre me interesso por livros com essa temática, porque acabam me ajudando a como melhorar. Esse me pareceu bem interessante. O cara escreveu 60 livros e fez trocentas faculdades, é pra poucos. Hahahah.

    Beijos <3

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  2. Olá!
    Acho que em tudo na vida devemos ter cuidados e porque não nas palavras seja elas ditas ou escritas. Afinal o que eu escrevo e interpreto pode não ser o mesmo ponto de visão do seu.
    O que eu mais curto nessas obras é que a abordagem dos assuntos é narrada com tanta propriedade e trazendo tantas vertentes de interpretação, que fica impossível não se envolver com a leitura.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  3. Olá!! :)

    Eu confesso que não sou grande fa de livros mais práticos e reflexivos, mas este ate não me pareceu mal! ahahah Gostei de ler a resenha, com bons excertos entre o texto.

    Enfim, acho uma ótima dica para quem gosta de escrever!

    Boas leituras!! ;)
    no-conforto-dos-livros.webnode.com

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  4. Tenho um pouco de receio em ler livros mais teóricos, mas por ser da minha área (Letras) acredito que essa obra em questão é uma ótima leitura.

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    1. Não é um livro teórico, mas é maravilhoso, principalmente para quem faz Letras.

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  5. Oi Lilian, tudo bem?
    Eu já tinha lido uma resenho sobre esse livro, mas, a princípio, não me interessei muito. Confesso que nunca li nada do Frei Betto, mas já sabia que ele tem uma obra extensa.
    Acredito que para quem escreve, como você, seja uma leitura muito interessante e enriquecedora. No momento, não é um livro que eu leria, mas pela maneira como você falou sobre ele na resenha, vou deixar a dica anotada. Quem sabe mais para frente eu leia né?
    Beijos!

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  6. Olá Lilian,

    Não conhecia a obra, mas achei a temática incrível, principalmente o fato do autor fazer reflexões a cerca da escrita como parte da construção de um ser. Com certeza é uma obra que eu leria, para enriquecer meu acervo cultural.

    Abraços,
    Cá Entre Nós

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  7. Olá, tudo bem?
    Achei a premissa desse livro bem interessante, principalmente para quem faz parte do mundo literário. Eu leio muito, reviso e as vezes até escrevo, além de ser formada em letras e estar me preparando para uma pós graduação, em outras palavras acho que esse livro foi feito para mim kkkk.
    Dica anotada
    Beijos

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  8. Oi Lilian, apesar do livro parecer bom, e acredito mesmo que seja, não é um que eu esteja querendo ler no momento. Talvez este desinteresse esteja no fato de eu não ser escritora ou ter muita ligação com as artes.
    Bjs Rose

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  9. Oi, tudo bem.
    Desde que comecei a ler livros sobre escrita, fico sempre procurando outros. Pois aprendi muito como leitora e futura escritora. E adorei a proposta deste livro. Coloquei aqui na minha lista, tenho certeza que vai só acrescentar na minha vida literária. <3

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  10. Oi, tudo bem? Não conheço o livro, nem mesmo o autor. Fiquei surpresa com a vasta vida acadêmica dele. Não concordo com ele quanto à literatura não precisar ser engajada, porque, se ela não faz refletir, não faz contestar, pra que existe? Se o autor é engajado e sua literatura não, desculpe, mas me parece tremenda hipocrisia. Aliás, acho que ele se contradiz, já que defende a escrita como parte da reconstrução do ser do individual e do coletivo. Como fazer isso sem uma literatura engajada? Mas enfim. Não é o tipo de leitura que busco, mas valeu conhecer a obra :)

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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  11. Oii
    Achei o livro bem interessante para quem quer saber nais sobre o assunto e para quem quer ser escritor. No meu caso não tenho vontade de conhecer essa obra.
    Bjus

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  12. Oie
    muito boa a resenha, gostei, fiquei curiosa pelo que estou lendo e espero com certeza ler um dia quando tiver mais paciência e disposição para o gênero

    beijos
    http://www.prismaliterario.com.br/

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  13. Oi, Lilian ^^
    Está aí uma obra que dificilmente pegaria para leitura principalmente por julgar a obra como sendo cristã, mas eis que cometo um grande erro.
    Se o autor faz análise do passado da escrita isso por si só pois além de arte a escrita é sim um processo social tanto que se formos analisar existem muitos enredos que para nós atualmente são rasos e nada interessantes mas que em sua época e século foram extraordinários e chocantes.
    Muito obrigado por compartilhar as suas impressões a cerca da obra. Quem sabe um dia eu não me aventuro a ler.
    Abraços.

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma

 
Autora dos livros O Céu é Logo Ali, Mulheres Que Não Sabem Chorar e Desconectada. Em seus livros ela aborda temas como sexualidade, liberdade, amor, preconceito, gênero, violência sexual, alcoolismo, etc. A escritora mantém um blog literário e trabalha com educação.

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