Resenha - O Caminho de Casa - de Yaa Gyasi




25 outubro 2017



“(...) No seu corpo ele sabia que nos
Estados Unidos ser um homem negro
era a pior coisa que você poderia ser.
Pior do que morto,
você era um morto que andava.”


O Caminho de Casa, de Yaa Gyasi, Editora Rocco, traz uma carga emocional angustiante, retratando a tensão da escravidão e o ônus para gerações futuras.  A narrativa deste doloroso e envolvente romance começa no século XVIII, com a separação das irmãs Effia e Esi que nasceram em Gana, nem chegaram a se conhecer e foram criadas em lugares diferentes, além do laço sanguíneo, as duas têm em comum vivenciar de perto a crueldade da escravidão.

Effia foi vendida para ser ‘esposa’ de um homem branco, James Collins, e passa a viver no Castelo de Cape Coast. Rememorando um conto de fadas, e dando expressão a processos do inconsciente, Effia foi vendida por Baaba, a mulher que a criou e por anos a maltratou. Após o casamento forçado, Effia tem um filho, Quey, que dará continuação a essa história. Esi, ao contrário da irmã, recebeu carinho em sua criação, porém, um dia sua aldeia é invadida e ela é raptada, trancafiada e violentada, sua única alternativa é sobreviver.

“Antes de Esi sair, aquele chamado governador olhou para ela e sorriu. Era um sorriso simpático, compadecido, porém verdadeiro. Mas, pelo resto da sua vida, Esi veria um sorriso no rosto de um branco e se lembraria do sorriso que o soldado lhe deu antes de levá-la para seu alojamento; de como o sorriso de homens brancos significava simplesmente que mais maldade viria com a próxima onda.”

A narrativa segue intercalando com os descendentes de Effia e Esi, entre Gana e Estados Unidos, e como cada geração vai lidando com o passado, como a sociedade se comporta, o homem branco que não considera o negro um ser humano, os efeitos disso e hoje o visível processo de apagamento de que houve escravidão e que temos uma dívida histórica.

“(...) Os brancos têm escolhas. Eles podem escolher o emprego, escolher a casa. Eles podem fazer filhos negros e depois desaparecer como se nunca tivessem estado por ali, pra começo de conversa. Como se essas negras com quem eles tinham ido pra cama ou que tinham estuprado tivessem dormido consigo mesmas e ficado grávidas. Os brancos também escolhem pelos negros. Antes, eles os vendiam. Agora, simplesmente mandam pra cadeia, como fizeram com meu pai, pros negros não poderem estar com os filhos. Pra mim, é de partir o coração te ver, meu filho, neto do meu pai, aqui com esses bebês andando pra lá e pra cá no Harlem que mal sabem teu nome, muito menos conhecem teu rosto. Só consigo pensar que não é assim que devia ser. Tem coisas que você não aprendeu comigo, coisas que são do teu pai, mesmo que não o conheça, coisas que ele aprendeu com os brancos. Fico triste de ver meu filho, drogado, depois de todo o meu esforço, mas fico ainda mais triste de te ver achar que pode ir embora, como teu pai foi. É só você não parar de fazer o que faz, e o branco não precisa fazer mais nada. Ele não precisa te vender, nem te pôr numa mina de carvão para ser teu dono. Ele é teu dono desse jeito mesmo, e ele vai dizer que você é o responsável. Vai dizer que a culpa é tua.”

O Caminho de Casa pode ser lido e contado de diversos modos, mas em todos os olhares, sempre vamos nos deparar com a memória coletiva da escravidão. Esse livro foi premiado, recebeu destaque na mídia, porém, mais que isso, deveria ser leitura nas instituições de ensino.




Não é essa uma simples leitura para fazer chorar, mas a voz da mulher negra que representa gerações de silenciamento e violência. O rompimento da visão eurocêntrica sobre a história do negro. Esse é o retrato do passado que projeta o futuro, nós somos o futuro do que um dia já foi a escravidão dos negros Africanos, temos uma dívida história e precisamos conhece-la, reconhece-la e paga-la. Não cabe mais preservar uma memória em débito e alimentar o racismo. 


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24 comentários:

  1. Olá, Lilian! Tudo bem?
    O Caminho de Casa parece ser um livro forte, emocionante, tocante e que causa angústia. Achei muito legal e válida a proposta de intercalar a narrativa sob a perspectiva, sob a ótica dos descendentes de Effia e Esi. O tema escravidão é algo brutal, não consigo imaginar o sofrimento que os negros passaram nos séculos passados na condição de escravo e muito menos a brutalidade que um ser humano inflige ao outro. Bela resenha e dica anotada!
    Bjs

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  2. Gosto da trama do livro, assim como me apaixonei e chorei junto do 12 anos de escravidão, tenho certeza que me apaixonaria por este.
    Uma excelente dica, espero poder em breve fazer a leitura.

    Beijos.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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  3. Oii Lilian tudo bem?
    Essa parece ser uma leitura extremamente forte e pesada,eu gostei muito de saber a sua opinião e sei que seria uma ótima pedida, mas primeiro terei que me preparar para realizar a leitura, que parece ser bem forte.
    Beijinhos

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  4. Olá!
    O livro parece ser tenso. Preciso ler, pois quanto se trata da escravidão as vezes percebo uma banalidade. E esse seu último paragrafo diz tudo: Temos dívida histórica até pq a escravidão pode ter acabado, mas as sequelas ficaram.

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  5. Resenha simplesmente sensacional! O tema abordado já me interessa naturalmente lendo aqui tua resenha fiquei me perguntando por que não li ainda este livro? também acho que histórias assim deveriam ser levadas para dentro das instituições escolares. Faria uma diferença muito grande no ensino dos nossos jovens.

    Abraço!

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  6. Olá, tudo bem? Não conhecia o livro, mas realmente parece ser uma leitura bem pesada e triste, com uma enorme carga emocional... Adorei a dica, certamente lerei quando estiver preparada!

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  7. Que livro forte. Não sei se tenho estômago pra fazer essa leitura agora; tô lendo Mulheres, Raça e Classe e cada página é um soco fundo no estômago. Mas vou guardar a recomendação, sim.

    ;*

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    1. Já li 'Mulheres, Raça e Classe' e realmente é muita leitura densa para uma única pessoa numa dose cavalar. Espero que um dia você leia ^^

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  8. Essa leitura parece ser bem pesada, mas toca em assuntos importantes. Parece ser uma leitura intensa.
    Beijos
    Mari
    Pequenos Retalhos

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  9. Oi! Nossa, que história! Provavelmente é pesado e eu ia me acabar chorando, mas coloquei na minha listinha de compras futuras para poder conferir de perto essa obra. O assunto é importante demais e precisa mesmo ser mais falado, ainda mais numa escrita linda como essa dos trechinhos! Adorei!
    Bela resenha!

    Bjs da Cami

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  10. Ooi!
    Desde a citação que esta no início, o livro chamou minha atenção. Parece ser incrível, pelo que disse. O fato de ser "pesado" (e real) me desanima um pouco, mas ainda assim, acredito que eu possa gostar bastante, pois apesar de forte e angustiante deve ser muito reflexivo e marcante

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  11. Que história, hein? Concordo com você, essa é uma obra para ser lida nas escolas. O prêmio foi bem merecido!

    Bjs.

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  12. Olá
    uau que livro forte, já quero para ontem. Gosto muito de livros que abordam essas questões tão tabus e fortes, então gostei da resenha e do que li sobre, já estou extremamente curiosa, dica anotada

    beijos
    http://www.prismaliterario.com.br/

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  13. Oii! Parece ser uma história muito intensa e emocionante, eu não conhecia essa obra, mas já vou adicionar na minha lista. Sua resenha está incrível, bjss!

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  14. Oi, Lilian! Não conhecia esse livro ainda. Ao ler sua resenha, fiquei feliz e angustiada. Feliz por mais um livro que trate sobre esse assunto que tanto, ainda em 2017, precisa ser discutido e elucidado; e angustiada por saber dessa necessidade. Ainda há quem diga que a escravidão não tem mais seus impactos na atualidade. Parabéns pela resenha e obrigada pela dica de leitura.
    Abraços,

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  15. Acredito que deva ser uma leitura extremamente impactante, forte! Eu ainda não conhecia, mas fiquei interessada em ler. Gostei da dica de leitura e espero ler em algum momento.

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  16. Olá, não conhecia a obra e achei muito interessante a resenha, me deu vontade de conferir a leitura. A capa é lindíssima.

    Abraços

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  17. Um retrato do passado que infelizmente continua bem atual... Não conhecia o livro, e com certeza vou anotar esta valiosa dica.
    Bjs, Rose

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  18. Oie!
    Ainda não sabia nada a respeito desse livro, mas tenho certeza que a leitura se faz necessária, e importante, apesar de ter tantas emoções dolorosas, é uma leitura que com certeza vou lembrar e colocá-la na minha lista de livros que desejo ler.
    Parabéns pela resenha bem objetiva.

    Beijos,
    Eli - Leitura Entre Amigas
    http://www.leituraentreamigas.com.br/

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  19. Excelente.
    Vou anotar para comprar esse livro.
    Tema denso mas ao que parece a escrita fluiu bem.
    Vou conferir.

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  20. Olá!
    Nossa, que resenha perfeita! A forma como você descreveu a trama me deu arrepios. Uma pena que nos dias de hoje o tema "escravidão" seja tão banalizado, quando ainda temos tantos escravos, sejam de qualquer raça ou etnia, no mundo. Muito tocante e forte. Parabéns.
    Bjos
    Lucy - Por essas páginas

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  21. Olá!

    Não conhecia esse livro, mas me chamou muito a atenção. Hoje mesmo assisti o filme "Mandela - O Caminho para a Liberdade" e mais uma vez me conscientizei de como a sociedade só tem a perder com racismo e segregação. Obrigada pela dica!

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  22. Amei a resenha e esse livro me lembrou muito "O livros dos Negros", que possui um enredo que, de certa forma, se parecem e podem ser um complemento, pois trata da escravidão e de como isso é algo que é necessário ser discutido. Amei!

    Até!

    Papo Inverso: www.youtube.com/channel/UCeQUfVde5W5VCE4rprOyDIA
    Lendo Ferozmente: lendoferozmente.blogspot.com.br

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  23. Oiii!

    Eu não conhecia esse livro acredita?
    Achei bacana a forma como a tematica foi abordada, obras como essa são importante para nos fazer refletir sobre os erros em nossa sociedade.
    Ótima dica!

    Beijnos

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