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As mulheres devem chorar... ou se unir contra a guerra


Pintura da autoria de Vanessa Bell, irmã de Virginia Woolf.

Inspirada no poema de Charles Kingsley (1819-1875), em que as mulheres choravam enquanto esperavam os maridos pescadores retornarem para casa, Virginia Woolf descreve em As mulheres devem chorar... ou se unir contra a guerra, a relação entre o militarismo e o patriarcado.

Coletânea publicada recentemente pelo Grupo Editorial Autêntica, reúne a versão abreviada do livro Três Guinéus, ainda inédito no Brasil, publicado originalmente em 1938. Pensamentos sobre a paz durante um ataque aéreo, publicado em 1940, pouco antes da morte da autora e três cartas de Woolf, além de outros ensaios como Profissões para mulheres, escrito em 1931.

(Arte Andreia Freire / Revista CULT/ Foto George Charles Beresford)

Dividido em três partes e um posfácio, escrito por Guacira Lopes Louro, estudiosa de gênero e sexualidade, Virginia traz um texto que ecoa a opinião feminista sobre o papel da mulher na guerra, as dificuldades do trabalho, a necessidade de romper ideias preestabelecidas, tais como que o intelecto do homem é superior ao da mulher, presente no ensaio ‘Uma Sociedade’: “Não suportamos ouvir mais nada dessa algaravia”.

Enquanto trazíamos crianças ao mundo, eles, supúnhamos, traziam ao mundo os livros e as pinturas. Nós povoávamos o mundo. Eles o civilizaram. Mas agora que sabemos ler, o que nos impede de julgar os resultados?  (Uma Sociedade, pág. 11)

No ensaio Profissões para Mulheres, Woolf destaca a importância de travar uma batalha interna contra o fantasma do ‘Anjo da Casa’, em alusão ao poema de Coventry Patmore (1823-1896), em que este anjo desapropria a mulher de sua própria capacidade de pensar livremente e criticamente, forçando-a a passividade. Consequentemente, morto esse anjo, a mulher passa a enfrentar outras dificuldades, fantasmas, preconceitos para romper com a ideia de um mundo exclusivamente para homens.

Voltei-me contra ela e a agarrei pela garganta. Fiz o que pude para matá-la. Minha desculpa, se tivesse que comparecer diante de um tribunal, seria a de que agi em legítima defesa. Se não a tivesse matado, ela teria me matado. Ela teria arrancado a alma da minha escrita. (...) elas devem seduzir, elas devem conciliar, elas devem – para dizê-lo sem maias-palavras – mentir se quiserem ser bem-sucedidas. (Profissões para Mulheres, pág. 31)

A autora nesse mesmo ensaio propõe outra reflexão pautada no fantasma do lar “é muito mais difícil matar um fantasma que uma realidade”, afinal o que é uma mulher? Essa resposta só é possível de ser definida quando as mulheres tenham ‘expressado em todas as artes e profissões que se oferecem ao talento humano’, é preciso oportunidades, equidade, liberdade e tantas outras coisas que as mulheres são privadas por serem mulheres para que tenhamos um dia, a resposta dessa pergunta.

O poder criativo das mulheres são duas cartas em resposta ao crítico literário inglês Desmond MacCarthy, sobre sua crítica favorável ao livro misógino de Bennett, em que questiona a capacidade criativa e intelectual das mulheres, mostradas, obviamente, como inferiores.

Minha diferença com Affable Hawk não é que ele negue a atual igualdade intelectual dos homens e das mulheres. É que ele, juntamente com o sr. Bennett, afirma que a mente da mulher não é sensivelmente afetada pela educação e pela liberdade; que sua mente é incapaz das mais altas realizações; e que ela deve permanecer para sempre na condição em que está agora. (O poder criativo das mulheres, pág. 43)

A autora prossegue em sua carta de repúdio, afirmando que se tais opiniões continuassem a permear as ideias da sociedade no futuro, esta estaria condenada ao ‘barbarismo semicivilizado’.  A preocupação antecipada de Virginia faz total sentido a julgar que ainda precisamos de leis e cotas para que as mulheres ocupem lugares de poder; para que o corpo da mulher não seja violado e, pior, para que a mulher tenha direito a própria vida.



Carta introdutória a Margaret Llewlyn Davies, terceira carta que compõe o livro, refere-se a um convite que Virgínia recebeu para prefaciar um livro que reunia escritos por mulheres operárias e como esta leitura fez a autora repensar as relações de classe, a mulher operária e o patriarcado, além da relação da própria autora neste processo. Que voz ela tem diante dessas mulheres com realidades tão distintas da sua? “Se todas as reformas que elas reivindicam fossem concedidas neste mesmo instante, isso não afetaria um único fio de cabelo da minha confortável cabeça capitalista”.

Em As mulheres devem chorar... ou se unir contra a guerra, que intitula esta obra, dividido em duas partes e outras subpartes, Virgínia desenvolve a ideia sobre a relação do militarismo, patriarcado e regimes ditatoriais, a partir de uma carta fictícia enviada a um advogado sobre a melhor forma de evitar uma guerra.

A guerra é desumana, horrível, nada natural, animalesca. O ditador é um monstro. Suas ordens devem ser desobedecidas. O Estado não é supremo. O estado é feito de seres humanos – homens e mulheres livre, que devem pensar por sua própria conta. (As mulheres devem chorar... ou se unir contra a guerra, pág. 108)

É perceptível a ruptura com a estrutura social de sua época ao rejeitar o patriarcado, a paixão bélica, o capitalismo, o patriotismo e consequentemente a guerra. A teia que é construída em toda a obra com a união dos textos, se distancia também do pensamento fragmentado tão comum ao capitalismo e se fundamenta numa abordagem sistêmica. Transcendendo a própria temática da guerra não como uma ação micro isolada, mas dentro de um contexto macro que necessita dela, a guerra, para continuar pungente, neste caso, como nada disso pertence a mulher, mas ao patriarcado, demos nos unir contra essa ordem vigente ou nos lamentar de toda a destruição por ela causada.

15 comentários:

  1. Oiiii,

    Eu não conhecia o livro, mas já quero ler Eleonora ontem!!! Fiquei super curiosa para saber como a história se desenvolve e como o texto flui. To muito na vibe de histórias feministas e saber a época em que foram escritos os textos me deixou mais animada ainda porque é bem a frente do tempo dela.
    Dica mais do que anotada.

    Beijinhos...
    http://www.paraisoliterario.com

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    1. Oi, não sei quem é Eleonora, mas espero que consiga ler. Sobre o texto ser a frente do tempo, não sei, Virginia viveu no entre guerras e suas ideias estão nesse contexto, obvio que no contraponto, questionando o valor da vida humana, as questões de classe, etc. coisas que outras pessoas também faziam na época.

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  2. Olá, tudo bem? Eu ainda não conhecia essa obra, mas pelo o que tu disse parece ser uma obra super importante e necessária, principalmente nos dias atuais. Adorei a resenha!

    Beijos,
    Duas Livreiras

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  3. Olá,
    Ela parece ter abrangido bem o tema, ainda mais por envolver a voz de operárias. Tudo deve ter ficado bem interessante de se ler.

    Debyh
    Eu Insisto

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  4. Gostei desse lançamento da editora e da edição. Estou com vontade de ler e ver como ela abordou o tema, que com ctza deve ter sido com maestria.

    Beijos
    Sai da Minha Lente

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  5. Não conhecia o livro, mas dá para ver que muito daquela época ainda existe hoje em dia, infelizmente. Com certeza é uma ótima dica de leitura. Obrigada!
    Bjos
    Vivi
    Blog Duas Livreiras

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  6. Olá!
    Acho bem interessante como conseguem achar tantos livros nessa temática. Tenho certeza que pra quem gosta de ler livros assim é um prato cheio. Não é muito o meu estilo, por isso passo a dica, mas ficou ótima a resenha.
    Abraços

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  7. Oi, tudo bem?

    Parece ser um livro rico e com uma grande carga emocional. Acho importante ler livros nessas temáticas, acredito que nos fazem pensar.

    Beijos,
    Blog Diversamente

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  8. Oiii tudo bom?

    Virginia Woolf foi, à sua maneira e conforme conseguiu na sua época, expor uma visão mais moderna e aberta, os principios de um feminismo que ela já pregava antes mesmo de se tornar uma realidade, gosto das obras dela, são sempre diferentes, reflexivas e atemporais, como estes próprios textos provam isso. ela pode estar falando com a mulher de outros tempos mas também conosco, as garotas dos tempos atuais, e essa identificação do leitor com as palavras do autor é sempre muito bacana

    Beijos

    www.derepentenoultimolivro.com

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  9. Oi, tudo bem?
    Eu confesso que não conhecia esse livro e ainda não tive a oportunidade de ler nada da autora. Tenho muita curiosidade, porém, ainda não achei o momento certo para ler algo dela.
    No entanto, achei a premissa desse muito interessante, especialmente por ela romper com os padrões da época e trazer reflexões sobre o patriarcado e o militarismo. Acredito que seja um livro muito rico e que traga uma perspectiva interessante sobre o papel das mulheres na sociedade daquela época e, principalmente, sobre a estrutura social do período.
    Adorei a resenha e vou anotar a dica.
    Beijos!

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  10. Estou deixando este comentário para dizer que gostei bastante do que acebei de ler aqui neste artigo, inclusive já salvei até meu navegador em meus favoritos.
    Abraços Arapiraca da sorte

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  11. Parece ser uma excelente leitura e a sua resenha me deixou curiosa com a obra, gosto de livros assim. Suas dicas são sempre muito válidas, mais um livro para a minha lista de desejados.

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  12. Oi Lilian! Tudo bem?
    Automaticamente esse livro entrou para minha lista de leitura já gigantesca, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Virginia Woolf é uma autora imperdível e isso é falar o mínimo! Mas confesso que nada li dela, ainda, mas darei um jeito de sanar essa falta quando minha lista diminuir pelo menos pela metade de livros físicos e e-books, que é GIGANTE.
    Excelente post!
    Abraços e beijos, Lady Trotsky...
    http://osvampirosportenhos.blogspot.com

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  13. Acabei de conhecer seu blog e estou simplesmente apaixonada , foi o melhor blog que conheci nesse ano

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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