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DAQUILO QUE DEIXAMOS / LEONARDO NÓBREGA


By image,  - Corinna Staffe


*Em memória de Maria da Conceição Albuquerque Ponte

 

Existe uma máxima criada por Airton Ortiz que afirma sermos resultado dos livros que lemos, das viagens que fazemos e das pessoas que amamos. Porém, em nossa vida o que somos de verdade? O que faz de nós quem somos? Cada pessoa, como um universo separado, poderia acrescentar na frase de Ortiz infinitos tipos de argamassas usadas no nosso edifício humano. Alguns diriam filmes que assistimos; outros, peças de teatro que aplaudimos, muitos música (Nietzsche, inclusive) que ouvimos, cursos acadêmicos que participamos, e por aí vai.  Acredito que pode ser um pouco de cada e quanto mais vivemos, mais variadas serão as peças que irão nos definir e pelas quais seremos lembrados. As manias e tiques que praticamos, as palavras que sempre repetimos, nossas comidas preferidas, porém nada será mais profundamente marcante e permanente que o cheiro, aquele que pertence apenas a cada um, não daquele perfume caro e importado (ou não) que usamos por toda a vida, mas o que as pessoas que nos amam e que estarão conosco até o final, até a partida, até a passagem, que fecharão nossos olhos ou segurarão nossa mão no derradeiro momento, sempre sentirão. Perfume que se insinuará às vezes ao remexerem nossa pequena herança, aqueles pertences que guardamos durante a caminhada, outras vezes em sonhos ou devaneios. Nesses momentos, fica a certeza de que não partimos, de que sempre estaremos ao lado dos que amamos, não importa qual doutrina religiosa está envolvida ou até se existe alguma. Seja pela emoção da via dogmática da crença religiosa, seja pela frieza analítica racional da ciência – que vai tentar explicar os labirintos do cérebro caminhando pelas sinapses da memória olfativa – o que conta é que todas as pessoas já experimentaram algum tipo de sensação sobrenatural envolvendo pessoas muito queridas que necessariamente nos deixaram.




Durante a vida, todos nós somos mini acumuladores, guardamos coisas que para os outros podem parecer bobagem, mas que para nós têm um poder secreto, uma atração por vezes hipnótica que não permite nos desfazermos, e nem estou falando das fotos, penso em lembranças mais prosaicas: de rosas murchas, entradas de cinema, chaveiros, um velho copo de plástico, um isqueiro vazio ou um cinzeiro de palitos de picolés, passando por relógios que não funcionam ou galos que mudam de cor dependendo do Tempo. Obviamente, a coisa em si não possui tamanha importância real, entretanto o significado depositado nela lhe confere uma carga energética incomensurável para aquele que a guardou e cultivou carinho nela por tantos anos. E que, de alguma forma, essa energia é transferível. Não pelos mesmos motivos, esses serão sempre pessoais e os de quem se foi, mais das vezes nos é desconhecido, o motivo, único agora, é a quem pertenceu tal objeto, não importa se para quem partiu era uma lembrança de um antigo amor ou marcava algum evento desimportante ou uma data que teria sido um divisor de águas na sua vida. Não. O valor agora é o de aquele troço antigo ter pertencido àquela pessoa, por ter sido importante para ela vai ser importante para mim.

By imagem © Corinna Staffe

Se pudéssemos ver nossa vida inteira representada em uma imagem, ela certamente não seria uma pintura a óleo ou uma fotografia, mas, certamente, uma tapeçaria formada por dezenas de milhares de trapos mal costurados, puídos e seguidamente remendados, os mais marcantes vividamente coloridos, outros desbotados (às vezes retingidos) e os momentos mais distantes da memória quase sumidos em sépia na barra do tapete. É a imagem da colcha de retalhos que acaba mesmo sendo a nossa existência.

 




*Sábado, dia 19 de setembro de 2020 (ano da tragédia pandêmica e segundo do desgoverno brasileiro) perdemos uma pessoa querida que teve uma vida longa e produtiva e que como professora em áreas de periferias, as chamadas de áreas de risco, ajudou muitos jovens a encontrarem caminhos do bem nessa Terra.


Ao ver o sofrimento da família ao arrumar seus pertences, vivi mais uma vez o que havia passado em 2013 quando do falecimento do meu pai e uma pergunta surgiu clara para mim: Por que guardamos tantas coisas que muitas vezes nunca olhamos mais de duas ou três vezes? Eu mesmo tenho uma pasta 007 repleta de cartões postais, bilhetinhos, cadernos de sonhos que nem fazem mais sentidos e de planos nunca realizados, a própria pasta é uma relíquia que merecia ter ido para o lixo há uns trinta anos. Mas não foi. Apenas as fotos de ex-namoradas que se abrigavam nela foram devidamente defenestradas pela esposa (muito justo).

Então, respondendo à pergunta. Acredito que guardamos coisas para que os outros possam chorar, elas são o interruptor da catarse daqueles a quem amamos, são a chance deles ressignificarem a vida de quem se foi. Aquilo que deixamos, retalhos de lembranças que nesse momento virão à tona com uma intensidade inimaginável, quebra-cabeças da nossa existência, marcas indeléveis da nossa presença na Terra e na vida e nos corações de outras pessoas. Marcas que não importam mais se são boas ou ruins, mas que permanecerão enquanto descendentes tivermos, legítimos ou por afinidade. Afinal, por que guardamos cada pedacinho de papel aparentemente desimportante? Por que acumulamos badulaques? Por que anotamos palavras que nunca leremos? Por que fazemos questão de ter próximo a nós fotos que nunca olhamos, a não ser para perpetuar, ainda que de forma inconsciente, nossa existência? 


51 comentários:

  1. Simplesmente isso!!!
    Sim,retalho, peça, encaixe, fotos,acordes, letras, lágrimas...
    Trazem a existência aquilo que fomos, ou talvez desejaríamos!
    É o Poder secreto das coisas ������

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    1. Pois é. Somos tudo isso e muito mais, e somos um universo diferente para cada ser que nos acompanha na jornada, as vezes por um breve período. Breve, mas intenso. Obrigado por suas palavras.

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  2. Perfeito!!! Me vi em cada palavra descrita pelo autor. Lembrando, com muitas saudades, de meus amados entes queridos, que hoje estão ao lado do Deus... Meu pai, três irmãos e por último, meu marido. Fazem 2 anos e 9 meses que ele nos deixou e, até hoje, não consegui me desfazer de suas roupas, escritos, fotos, lembranças de sua passagem por aqui. Acredito que, no meu subconsciente, fosse como se mesmo sem sua presença física, ele continua presente, através de seus pertences, que guardava com tanto apreço e carinho.

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    1. Que bom que pude, de alguma forma, lhe propiciar lembranças boas e presenças etéreas. Obrigado pelo seu comentário.

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  3. Delícia de viagem pelo "sentido do existir". Sempre faço incursões pelas "tralhas", como referem os meus filhos, da minha jornada de vida. É o meu "Google" afetivo. Obrigada.

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    1. Oi, quando terminei de escrever também fui mexer na minha pasta 007, é terapêutico. Obrigado pelo seu comentário.

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  4. Nossa, que viagem eu tive lendo esse texto, pensei em tanta coisa mas agora que chego ao fim, prevalece o sentimento de sentido de existir e a fragilidade da vida.
    Acho que revisitar alguns momentos do passado é smepre essencial, mesmo que eu tenha algumas mágoas do passado, me sinto feliz de onde cheguei. Que texto incrivel, nossa, obrigada mesmo por esse momento!

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    1. Oi, Bianca. Essa é a forma que nos resta para manter quem amamos vivos e presentes, e é bem eficiente. As mágoas do caminho servem para nos fazer crescer, são importantes, só não podemos nos render a elas. Obrigado pelo comentário. Abraço.

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  5. Oi, tudo bem? Adorei o texto, achei bem reflexivo. Acho que somos, mais do que as coisas que fazemos, mas os sentimentos que sentimos por causa dessas coisas. E acho que guardamos tantas coisas aparentemente "desimportantes", por causa do apelo emocional, acho que é importante que guardemos de recordação como nos sentimos naquele momento, acho que é por isso que tiramos tantas fotos, por exemplo. Não queremos somente eternizar o momento físico, mas o emocional. Obrigada pelo texto, achei-o de ímpar sensibilidade e importância!

    Love, Nina.
    www.ninaeuma.blogspot.com

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    1. Oi de novo, Nina. Obrigado por comentar minhas letras mais uma vez. A questão dos objetos é exatamente essa, o que eles guardam por baixo dos materiais, é a caixa vazia cheia de beijos da anedota sentimental. Abraço

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  6. Olá, que texto maravilhoso! Ler esse texto me fez repensar várias coisas, pois sou dessas que guardo até um palito de fósforo rs. Acho que eu precisava ler esse texto, não foi por acaso. Obrigado por compartilhar.

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    1. Olá. Que bom que você gostou e agora o seu palito de fósforo ganhou mais sentido (rsrs). Obrigado por comentar.

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  7. Nossa, que texto que nos convida para embarcar nessa viagem que nos fazem ficar reflexivos e encantados com cada palavra nele presente. Gostei demais de conhecer esse autor, agora já está em minha lista dos preferidos.

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    1. Oi. Estou ruborizado com o elogio. Agora sempre que for guardar alguma "tralha" você vai ver além do objeto. Obrigado pelo comentário. Abraço.

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  8. Realmente, o que somos nós afinal? Recentemente fiz (ainda estou fazendo na verdade) umas mudanças no meu quarto e vi o quanto de coisa que eu guardava, mas que não fazia mais sentido algum, muitas eu nem me lembrava mais. Porque guardamos tantas coisas, que nem vamos olhar novamente? Esse texto veio para confirmar o que estou fazendo, uma limpeza não só no quarto, mas quem sabe represente uma limpeza na alma, que precisamos fazer também.
    Bjks!

    Mundinho da Hanna
    Pinterest | Instagram | Skoob

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    1. Olá, Hanna. Mude, mas, por favor, não mude tanto, nem tudo a gente deve jogar fora, parte dessas coisas nos representam. Obrigado por comentar. Abraço.

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  9. Oii!

    UAU, nossa... eu to sem palavras...Primeiramente, eu sinto muito pela perda...
    Gostei da reflexão, eu sou a pessoa que guarda algumas coisas, mas descobri que meu marido é mil vezes mais acumulador que eu... doido demais hehe. Gostei muito, muito do texto! Parabéns!

    Beijinhos,
    Ani
    www.entrechocolatesemusicas.com.br

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    1. Oi, Ani. Obrigado pela solidariedade e pelo comentário. Acumular as vezes é bom, seu marido só precisa de cuidado para não ocupar a casa toda com as lembranças de vida. Abraço.

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  10. Nossa, que texto maravilhoso. Concordo com tudo e até me emociona pensar como somos mesmo uma colcha de retalhos e importância dos nossos pequenos e "inuteis" pedacinhos de nada guardados com o tempo. Ja passei por 2 situações, como a mencionada no texto, de dar rumo aos pertences de quem se foi e digo que guardo comigo alguns itens até hj. Servem exatamente como lembrança, lágrima e conforto.

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    1. Olá, Karina. Ainda tenho (e terei sempre) algumas coisas do meu pai, coisas simples, como um copo de aço que ele gostava muito e que acordava a casa toda quando caia de madrugada (rsrs)e um relógio de algibeira. Depois de algum tempo essas coisas nos trazem lágrimas de saudades, mas não de dor. Abraço.

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  11. Oioi! Eu acredito que guardamos coisas pequenas em uma luta contra o esquecimento, também. Pois nossa memória guarda muito pouco e vivemos tanta coisa... Eu tenho diários para, de vez em quando, reler e lembrar. Ver ingressos e sentir saudade daquele dia no cinema. Olhar notas fiscais de produtos que eu quis muito e consegui com meu dinheiro. Pequenas conquistas que, aos poucos, compõem minha colcha de retalhos. Mas acredito que esses pequenos retalhos que eu costuro também sejam para um "outro", algum leitor em branco que, algum dia, talvez encontre essas minhas memórias, como você disse, e possa sentir através delas depois que eu partir. Linda reflexão e texto maravilhoso. Abs!

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    1. Olá, Letícia. Obrigado pelo comentário e pelo elogio. A ideia que depois que formos ainda ficaremos nas pequenas coisas que dávamos importância me causa um certo alívio. Abraço.
      P.S.:Minha filha mais velha (35 anos) tem todos os ingressos de cinema dos filmes que viu desde os 14 anos.

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  12. Leonardo, mais uma vez com um texto que me toca/afeta profundamente. me li nas reflexões que vc levantou de maneira tão poética. eu, guardadora de badulaques de memória [mal de Historiador, talvez? rs]
    que bonito, meu caro... que bonito...<3

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    1. Oi de novo, Val. Sou Geógrafo e também guardo tralhas, tenho um minimuseu no meu quarto, quando me for o lixo será considerável rsrsrs. Obrigado pelo comentário. Abraço

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  13. "Acredito que guardamos coisas para que os outros possam chorar..." eu amei esse seu texto! Leonardo, dialogou profundamente comigo justamente porque eu não consigo acreditar que viemos sem propósito. Algo, no dado momento, vai trazer (ou deixar!) algum sentido a acrescentar a alguém em nossa trajetória. Penso que livros nos favorecem a continuar a remendar a colcha de retalhos que o universo nos oferece a tecermos ao longo de nossa estadia na Terra. Bjs

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    1. Olá. Obrigado por mais um comentário. Concordo que daquilo que deixamos os livros são o que mais nos representam. Neles tem o nosso cheiro e nossas ideias pelas escolhas que fizemos dos títulos. Abraço.

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  14. Nossa, que impactante e reflexivo! Eu sou uma acumuladora e só eu sei o quanto as minhas bagagens são importantes no molde geral que me faz ser a pessoa que sou hoje. Por exemplo, cada livro que eu leio só tem a acrescentar! Já que me modifica de alguma forma e é fundamental para a minha desconstrução e crescimento como criatura.

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    1. Olá, Debora. Que bom que minha reflexão lhe tocou. A importância dos nossos badulaques a maior parte das vezes é dada pelas pessoas que ficam, para nós é como você disse, é o material com o qual somos construídos. Abraço.

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  15. Simplesmente perfeito o texto
    Direto e super impactante com as palavras. me fez pensar muito na minha vida e na minha colcha de retalhos que fui juntando durante meus 30 anos

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    1. Olá, Renata. Obrigado pelo perfeito, que bom que você gostou. Espero que você ainda junte muitaaaaa tralha pela vida e que cada retalho da sua colcha tenha um significado especial para você e para quem ficar. Abraço.

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  16. Oi, tudo bem? Acredito que todos nós somos pequenos mundos, pequenos universos, que muitas vezes são alterados quando em contato com outros tão semelhantes ou distintos dos nossos. Passamos pela vida "acumulando" coisas... alegrias, tristezas, sonhos, realizações, e isso faz de nós quem somos. Mas também há aquilo que deixamos para o mundo nossas contribuições. Por isso ser importante ter um propósito de vida. Um abraço, Érika =^.^=

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  17. Oi, Erika. Obrigado pelo seu comentário. Nossos pequenos mundos quando se chocam com outros pequenos mundos criam universos que serão mantidos e lembrados por nossas recordações. Abraço.

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  18. Nossa, seu texto é muito reflexivo. É isso mesmo, às vezes temos que desapegar daquilo que não nos importa mais. Mas entendo como é difícil nos desfazer de pedaços que podem nos lembrar alguém querido.
    Bjos
    Lucy - Por essas páginas

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  19. Olá, Lucy. É bem isso, sabemos que aquela coisa não tem mais serventia, entretanto faz parte de nós, aí não conseguimos nos desfazer. Abraço.

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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