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OS MORTOS ENTRE NÓS / LEONARDO NÓBREGA

 

A Morte de Sardanápalo, 1827, de Eugène Delacroix, Museu do Louvre, Paris.


Vivemos momentos de angústias, tristezas, despedidas, incertezas e falta de lideranças. São tempos que não deveriam voltar, não deveriam mostrar seus dentes podres e fétidos de novo, isso não era para acontecer mais depois do Renascimento, depois da ciência ser levada um pouco mais a sério. Entretanto descobrimos que ainda restaram uns torrões no planeta onde a religião fanática e burra ainda nega a ciência e suas descobertas, onde governos que desprezam a vida são adorados por fundamentalistas tão cruéis quanto eles próprios e com essa união macabra os mortos se acumulam, os corpos se multiplicam, os defuntos são contados aos milhares por dia, é revoltante e, entretanto, não há revolta, não há gritaria ou protestos. A morte não choca mais, a morte passou a ser, como na Peste ou na Gripe Espanhola, normal. Algo do cotidiano como almoçar, dormir ou beber uma cerveja. Mas, e as almas perdidas? E os espíritos inquietos, para onde vão?

 

Antes de continuar devo deixar claro que não sou seguidor de nenhuma religião, o que passo a escrever é inspirado em crenças, relatos e discursos de outras ordens que não são pessoais. Embora não me ache um ateu radical, até porque isso seria ser também fundamentalista e fanático.

“O Jardim da Morte” (1896), de Hugo Simberg 


Existem diversas teorias sobre o que acontece com nossas almas ou espíritos quando o corpo físico se esvai, inclusive existem teorias que discutem se alma e espírito são simplesmente sinônimos, ou se são coisas diferentes. Enfim, temos, em algumas correntes religiosas, as almas que voltam a Deus para serem julgadas e ficam no paraíso ou são encaminhadas a Satã para uma eternidade de sofrimento, nesse caso, não teríamos espíritos vagando por aqui, todos iriam diretamente prestar contas com o criador. Já em outras vertentes temos a presença dos desencarnados no purgatório tentando melhorar para terem acesso ao paraíso celeste e, finalmente, encontramos uma vasta gama de teorias, desde as que dizem que as almas dormem inconscientes esperando pelo dia da ressureição ou da reencarnação, dependendo da crença do falecido, até aquelas que falam das popularmente chamadas de almas penadas, espíritos confusos que não entendem o que aconteceu, são apegados ao mundo físico ou as pessoas queridas e ficam vagando entre os vivos em busca de entendimento ou perdão.

 

São sobre essas almas que falamos. Nesses tempos de tantas perdas quantos dos nossos mortos estão zanzando entre nós? Quantos gritam nos nossos ouvidos sem serem ouvidos? Quantos calafrios sentimos que são a presença deles? Acredito que muitos perdidos recorrem a nós sem que possamos responder e assim eles ficam mais desamparados e confusos, porque acreditam que estão vivos ainda, para eles nada mudou.

 

Confesso que não sei se era isso mesmo que queria escrever, ou se alguém vai me entender. Sequer sei o que fazer com essa teoria, ela veio após relatos de algumas pessoas que perderam amores para essa doença maldita e para o descaso governamental e que passaram a sentir manifestações estranhas. Entre essas pessoas dois são bem próximos de mim, meu sogro, que passou a sentir coceiras pelo corpo todo, mas só dentro do quarto onde cuidou da esposa por vários meses, no restante do apartamento e na rua nada sente, e outro senhor que dividiu a cama com a esposa até a véspera da internação e morte dela e que agora acorda no meio da noite com calafrios.

 


Claro que tudo isso pode ser psíquico, como psicanalista não posso deixar de considerar o enorme poder do cérebro e da mente sobre nossas emoções, mas podem ter certeza que se eu sentir algo diferente como calafrios ou sensações de presenças não visíveis não me furtarei a dar uma palavra amiga e esclarecer o que aconteceu com aquela energia que escolheu a mim para interagir. Então, se me virem falando só, saibam que não estou exatamente sozinho, posso estar oferecendo conforto a uma alma desencarnada confusa e triste, faça isso também, quem sabe nesses tempos nebulosos você estará ajudando alguém a seguir o seu caminho no universo. Abraços e força.





51 comentários:

  1. Parabéns pelo texto! Vem pensado em como estão sendo recebida todas essas almas no céu de uma vez só.
    E a quem vamos pedir socorro para que essas mortes sejam estancadas?

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  2. Tema curioso, adoro. Tudo o que envolve o sobrenatural me chama atenção.

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  3. O pós vida é um enigma e uma obsessão. Divagar, religiosamente ou não, sobre o que acontece depois da morte física é, ao mesmo tempo, intrigante e tabu. Excelente texto.

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  4. Excelente material! Muito obrigada pela partilha! Parabéns.

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  5. Acredito que o mundo dos desencarnados, ali, do outro lado do caminho, esteja um caos. Não é fácil fazer a passagem nas circunstâncias em que se encontra o planeta.
    Agora, falemos do campo literário: todos esses acontecimentos têm me feito lembrar do romance " A menina que roubava livros", em que a Morte, durante a Segunda Guerra Mundial, está exausta, exaurida de tanto trabalhar. Imagino como essa terrível senhora esteja se sentindo nestes nefastos tempos de pandemia.Deve estar escambichada.

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  6. O psicanalista e escritor Leonardo Nóbrega retratou com excelência o momento que todos estamos vivendo. Parabéns!

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  7. Nossa!!! Por onde começar? Meio, talvez? Deixar claro que em especial e especificamente esse escritor é top, meu amigo é louco, Rsrsrs. E eu me pareço com ele. E agora?!. Escutar ao ler suas palavras me faz sentir, e sentindo sinto que estou viva. Se foi permissão Divina, gratidão. Entre mortos ( meus sentimentos) e feridos ( todos nós), porque de alguma maneira estamos identificando e tratando as, em outros casos lambendo as, caos, pois determina um ciclo sem cura, no qual alimenta sentimentos de recusa, repulsa... Entendo e vivo hoje um processo de reconstrução em todos os sentidos!!! " O mestre da sensibilidade- Jesus, o maior especialista no território da emoção" Augusto Cury; sim ler e ser lido nesse novo normal será necessário, estou vivendo isso. Agregar novos valores também. Parafraseando Benjamin Franklin-Mostra me e eu esquecerei,ensina me e eu lembrarei, envolva me e eu aprenderei. Segue, vai na tua FÉ... Andar com Fé eu vou, que a Fé não costuma a falar...
    Educadora, Professora de Artes Diany Gomes 🌹

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  8. Não sabia, Léo, que você é psicanalista. Bom... Olha, quando você disse que não sabia para onde estava indo seu texto, realmente, notei isso. Parece que você estava num terminal com várias direções a seguir e você acabou por decidir ir ao sombrio além. rsrs Passei muito tempo na minha mocidade engendrado nessas questões teórico-filosóficas e também por um lado curioso de acompanhamento de manifestações ectoplasmáticas ou sobrenaturais (e não apenas no que se refere à boa literatura fantástica, quadrinhos ou filmes de TV) in loco, onde apenas coceiras e comichões noturnos eram coisas de criança. Acredito demais na permanência dessas manifestações que alimentam o imaginário desses artistas e que ainda transcendem a nossa razão. Dá pano para manga de escrever centenas de textos e nós não concluiríamos esse tema. Parabéns pelo blog.

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  9. Tema intrigante e escrita fluida fazem desse texto uma excelente reflexão! Bom demais começar o dia assim! Gratidão por isso!

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  10. Como sempre, impecável em suas escritas literárias! Parabéns, primo, por compartilhar conosco seus vastos e imprescindíveis pensamentos!

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  11. Interessante as questões apresentadas em seu texto. A ciência vem dando pouco caso a assuntos que tratam das manifestações de desencarnados. Afirmam que a religião deve se importar com o sobrenatural ou com o que acontece com o espírito dos mortos. Sugiro a leitura de livros de Allan Kardec que embasam a Doutrina Espírita, como um tripé apoiado na Ciência, na Filosofia e na Religião. Eu, particularmente acredito que estamos interagindo diuturnamente com nossos entes queridos que nos antecederam à pátria dos espíritos!

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  12. Oi Leonardo, tudo bem?
    Fiquei triste lendo seu texto. Realente também tenho essa percepção que ninguém mais se importa com o número de mortes. Para mim, a notícia de perda de uma pessoa para essa doença, já é inaceitável. E estamos falando de mais de 3 mil mortes diárias no Brasil. Às vezes, dá medo das pessoas com que convivemos. Sobre o que acontece com a pessoas depois que ela infelizmente falece, eu não saberia dizer, mas eu não me fecho para as possibilidades.
    beijinhos.
    cila.

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  13. Nossa o texto é avassalador, pois o tema é uma constante reflexão e enigma. Pensar a morte é pensar a vida. E qual vida desejamos? Como vamos permanecer? Tantos questionamentos...

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  14. Olá, tudo bem?

    Nossa, vou ser bem sincera, não sei por onde começar o meu comentário, pois adorei o texto. Trouxe uma reflexão sobre a morte sensacional, porque eu perdi três amigos para essa doença maldita. As notícias vieram tão rápido, que ficamos sem chão. Infelizmente ela trouxe e ainda está trazendo tempos sombrios para todos nós e não está sendo nada fácil. Principalmente por causa do descaso governamental. Enfim, lembrei deles no momento que li este texto. Parabéns pelo texto.

    Bjos
    https://consumidoradehistorias.blogspot.com/

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  15. Esse descaso com quem tá morrendo é o que mais me revolta. Esse texto reflete um bocado das minhas inquietações. Não tenho certeza sobre nosso destino depois que morrermos. Não tenho fé em dias melhores, parece que a tendência é só ladeira abaixo. Excelente em suas palavras, leonardo. Parabéns pela honestidade em descrever seus conflitos e reflexões..

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  16. Olá!
    Realmente, este tempo tão difícil que todos nós têm passado é pesado e complexo. Acho que para onde vamos é outro assunto ainda mais difícil pois não sabemos exatamente o que têm além da vida, mas acredito sim, que devemos ajudar estas almas que estão desencarna ndo agora porque deve ser muito difícil se desprender do físico, com está doença tão terrível e rápida.

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  17. Parabéns pelo texto. Realmente tudo que falaste faz muito sentido. Também fico pensando nessas almas que estão indo. Sempre as coloco em minhas orações e espero que estejam em um bom lugar.

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  18. Oie Lilian. Um ótimo texto do autor. Sabe, estamos vivendo momentos absurdos e desesperadoras. Estou na linha de frente, na área da saúde, e dizem que nós ficamos frios com o trato humano. Eu na verdade acho que fria está a sociedade que não enxerga a catástrofe à sua frente. Eu tbm acho que existe algo mais e alguma implicação. O que eh, eu não sei. Mas q existe, existe!

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  19. Olá, tudo bem? Esse tipo de assunto é complexo né?! Eu tenho uma religião, então creio um pouco do dogma e sua construção, mas é interessante o quanto o além está fora do nosso alcance saber. Realmente nos indagamos acerca da alma, principalmente quanto estamos tão próximos de diversas mortes e a recorrência dela, por isso adorei o texto. Não sei o que pensar, ou crer muito sobre, mas gostei do que levantou de assunto. Excelente texto e reflexão!
    Beijos

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  20. Eu também não sou seguidora de nenhuma religião e tenho horror ao fanatismo em geral, não importa de qual parte venha. Achei o assunto e reflexão super pertinentes! Porque acredito em alma, só não do jeito que algumas religiões contam sobre de uma forma fantasiosa e tudo mais. Mas, eu acredito que sou mais do que um cérebro e corpo e o universo é mais misterioso e complexo do que as pessoas podem entender. Acredito na existência de outras dimensões e que o ser humano não é o único ser que existe no universo, então faz sentido muita coisa. Parabéns pela honestidade.

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  21. Oi, tudo bem? Achei bem interessante a reflexão. Acredito que certos temas devem ser discutidos sem levar em consideração as mais diversas religiões. Mas pensar para onde vão tantas almas é um questionamento das civilizações desde os primórdios. Será que existe vida após a morte? Será que voltamos para reparar nossos erros? Ou não existe mais nada? Independente do que aconteça devemos fazer o nosso melhor enquanto vivemos. Concorda? Um abraço, Érika =^.^=

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  22. Oi, tudo bem? Achei bem interessante a reflexão. Acredito que certos temas devem ser discutidos sem levar em consideração as mais diversas religiões. Mas pensar para onde vão tantas almas é um questionamento das civilizações desde os primórdios. Será que existe vida após a morte? Será que voltamos para reparar nossos erros? Ou não existe mais nada? Independente do que aconteça devemos fazer o nosso melhor enquanto vivemos. Concorda? Um abraço, Érika =^.^=

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  23. Oi, tudo bem?
    Temos vivido tempos tão tristes e com tanto sofrimento, que é até difícil pensar nas consequências de tudo isso. Tenho pensado muito na vida das pessoas que perderam um ente querido e agora precisam conviver com o luto. Mas, lendo seu texto, parei para pensar naqueles que se foram e não consigo imaginar como está o espírito deles. Porém, acredito que existem outros espíritos para ampará-los após a morte e ajudá-los nessa passagem.
    Abraços

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  24. Nossa, essa reflexão vem bater de frente com nosso dia a dia. Assusta. E eu me pergunto o porquê de vidas não terem o mesmo valor. Cada caso é um caso. Sendo que não deveria ser assim.
    O pós-morte, nosso eterno dilema, uma grande interrogação. Creio que só poderemos ter essa "certeza", no nosso momento de passagem. Ou não?!
    Espero que ainda existam pessoas que pensem nos outros, que amem vidas, que tentem fazer o melhor e fazer a diferença. Eu busco ser melhor, tomara que esteja crescendo e aprendendo!!!
    Abraços

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  25. Que texto lindo e simbólico, é triste ver tantos corpos perdendo suas almas nessa pandemia por descaso do governo. As vezes fico pensando sobre como como deve ser pra quem perde esse ente e pra esse ente que se vai sem poder terminar sua missão.

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma