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Dez poemas para conhecer Lara de Lemos

 



Lara Cibelli de Lemos (1923 - 2010), nasceu em Porto Alegre/RS e, após a morte dos pais, aos cinco anos, foi criada pela avó em Caxias do Sul/RS. Formou-se em História, Geografia, Pedagogia, Jornalismo e Direito, com especialização em Literatura Inglesa e Contemporânea. Trabalhou como professora, poeta, tradutora e jornalista em periódicos como, Correio do Povo e Jornal do Brasil. Em 1955 estreia na literatura com a publicação de dois contos na Revista do Globo. Seu livro de estreia na poesia foi Poço das águas vivas em 1957 e recebeu o Prêmio Sagol. Sobre seu primeiro livro de poesias a autora discorre, “havia uma necessidade muito grande de me saber e de me compreender. É um livro lírico. Eu ainda não estava voltada para o mundo. É interessante como toda mulher que escreve, começa se indagando”. De forma geral, Lara de Lemos constrói uma ponte entre o subversivo, desde quando questiona o lugar da mulher até quando questiona o período da Ditadura Militar; entre o intimismo; a dor; a solidão. As palavras de Lara são um legado de sua história e da história do Brasil.

 

 

I – ARMADILHAS

 

Do exílio voluntário

Ficar por aqui mesmo

na umidade do horto

na rudeza dos troncos

no secreto das raízes.

Ficar por aqui mesmo

– anônimo refúgio –

breve engodo de verdes e silêncios.

 

Ficar por aqui mesmo

onde o galo canta

com o sol e cisca

o tempo.

nada mais peço.

 

Vagalumes e grilos

atestam a marca

do que teço.

o tempo que me é dado

e a que pertenço.

 

Lara de Lemos e Mario Quintana

 

CAÇADA

 

O dia e sua cilada

surgiram de surpresa.

 

No instante iníquo

não consegui rastear

a fuga. Sabia-te indefeso

à mira, ao tiro.

 

Despedaçaram-te.

Em cega fúria de fera

empunho meu escudo

de veneno e ódios.

Antecipo-me.

 

Retomo-te em meus dentes

e prossigo.

 

PENÉLOPE

 

No tear pequeno

teço os fios

da minha vida

teço o tédio.

 

No tear do tempo

teço teia in-

consistente

teço o verso.

 

No tear do Universo

teço o verbo

solitário

teço o poema.

 

No tear do medo

teço o pano

derradeiro

teço o sudário.

 

DA ANGÚSTIA

 

Sei o momento escuro da vida.

O momento da vaga imensurável

Sepultando meu corpo

em mar de agruras.

Sei o momento exato

Desta morte.

 

 

art — Vyctor Hugo


VIDA NÃO VIVIDA

 

Espero o fim da façanha.

 

O ocaso dos tiranos

a abolição dos mandatos

a bicicleta dos cegos

a vinda do ser biônico.

 

Espero o fim da patranha.

 

A supressão dos impostos

a queima das promissórias

a vitória nas diretas

o carnaval em agosto.

 

Espero o fim dos cucanhas.

 

Proibição das trapaças

manhãs de falas abertas

a praça para os profetas

o fim dos tecnocratas.

 

Espero o fim da esperança.

 

LEGADO

(Para Laury Maciel)

 

Recuso-me a herança

deste poço vazio

deste lodo legado

em negligências.

 

Engulo a seco e calo.

Aposto em cada poema

— único engenho

ainda não vencido.

 

Proponho rubros jogos

olhos atentos

para o imaginário.

 

Ases de puro ouro

— naipes que guardo

para meu incêndio.

 

DO PÁSSARO

 

O pássaro apanha

a ponta do mistério

desenrola o fio da vida

e canta.

 

ERÓTICA

 

Gostaria de ter

Meu homem agora.

 

Aquele que outrora

Com sua garra

Sua fúria.

 

Tenso, ágil invadindo

meu corpo.

 

Implacável como um cavalo selvagem.

 

 

REPERCUSSÃO DO POEMA

(Para Sérgio Campos)

 

Experimenta jogar uma

Pétala exata nas

Profundezas de um poço

No vazio de um túnel.

 

Aguarda o ressoar

Do eco.

 

Nada ouvirás

                                                              Por certo.        

 

 

DO AMOR NECESSÁRO

 

Não me peçam

poemas exatos

urdidos em dor.

 

Há um excesso de

exatidão no mundo

e um imenso vazio

de amor.


(Lara de Lemos. Poesia Completa I / Org. Cinara Ferreira. Porto Alegre: EDIPUCRS: Movimento, 2017)

18 comentários:

  1. Oi Lilian!!

    Nunca canso de dizer que toda vez que entro em seu blog eu saio conhecendo uma coisa nova ou uma pessoa mova que eu não fazia ideia da existência, adoro isso em seu blog e suas postagens! Adorei conhecer um pouco mais sobre a Lara de Lemos, devo dizer que me assustei um pouco com a quantidade de graduações que elas se formou kkkkkkk

    Beijos!
    Eita Já Li

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    1. Oi. Também fiquei a pensar sobre isso, a quantidade de graduação dela hahahahha... muita energia ^^

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  2. Eu amo vir aqui no seu blog e sempre sair descobrindo um autor novo, hehe. Acho que Lara de Lemos passaria fora do meu radar, pois eu não sou chegada em poesias. Mas confesso que as que você escolheu tem uma profundidade que chamam realmente a atenção. E, só não me espanto com a quantidade de graduações dela, pois conheço uma pessoa que tem 6 graduações também, hehe. Só me pergunto o motivo de tantas... rs
    Bjks!

    Mundinho da Hanna
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  3. lilian e seus posts que mexem comigo <3 eu não conhecia Lara lemos mas acho que você escolheu os poemas pensando em mim kkkk. mas o que seria da arte escrita senão algo a dizer a quem lê.

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  4. Gostei muito de conhecer melhor a respeito de Lara de Lemos. E também todos esses poemas apresentados, que realmente valem a pena conhecer. Sensacional pelos questionamentos sociais e políticos importantes levantados por ela. Sem dúvida, sei apreciar bem livros líricos.

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  5. Oi, tudo bem? Ah, que legal você compartilhar com a gente uma mulher tão talentosa quanto ela. Temos muito em comum. Meus pais são separados e fui criada pelos meus avós durante um tempo. Também pensei em cursar Direito mas acabei escolhendo Ciência da Computação. E, assim como ela, gosto muito de transformar sentimentos em palavras. Amei as que escolheu. Um abraço, Érika =^.^=

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  6. Nossa, que mulher incrível. E que infelizmente, nunca havia ouvido falar nela. Grandes feitos! E lindas expressões de seus escritos você nos trouxe. Que post satisfatório. Parabéns!!!!!

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  7. Danossse, eu mal tenho uma graduação e olha o Lattes dessa mulher kkkkkk
    Não a conhecia mas fiquei curiosa, ainda mais com esses poemas tão delicados

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    1. Né isso?!?! eu acho que esse número de formações acadêmicas para época, já demonstra uma mulher inquieta e aparentemente disposta a romper com determinado aspectos sociais. Obrigada por visitar o blog

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  8. Eu adorei a apresentação dos poemas, dentre eles, o que eu mais gostei foi Penélope, porque claramente está associado a experiência homérica da Odisseia, e é uma das minhas paixões! Os outros também são lindos!

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  9. Ela me parece ser muito versada, e fiquei apaixonada pela escrita poética dela. Acho que a mulher forma de apresentar um autor é apresentar a sua obra! Parabéns pelo post!

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  10. Olá, tudo bem? não sou muito de ler poemas, situação que venho tentando mudar há alguma tempo, mais adorei o post com as dicas, todos eles trazem mensagens muito bonitas :)

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

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