Resenha - Os excluídos da história: Operários, mulheres, prisioneiros




13 novembro 2017




Michelle Perrot é uma pesquisadora francesa conhecida pelo seu trabalho que destacam o papel da mulher na sociedade. Se sobressai no meio acadêmico por publicação de ensaios, artigos científicos e obras como História dos Quartos, História da Vida Privada; As mulheres ou os Silêncios da História.

“As mulheres não são passivas nem submissas. Elas estão presentes aqui e além. Elas são diferentes. Elas se afirmam por outras palavras, outros gestos. Na cidade, na própria fábrica, elas têm outras práticas cotidianas, formas concretas de resistência – à hierarquia, à disciplina – que derrotam a racionalidade do poder, enxertadas sobre seu uso próprio do tempo e do espaço. Elas traçam um caminho que é preciso reencontrar. Uma história outra. Uma outra história."

Os excluídos da história, Grupo Editorial Record, de Perrot, é uma reunião de artigos que traz para o centro da discussão acadêmico grupos até então marginalizados e como participaram da história no século XIX, na França. Dividido em três partes, operários, mulheres e prisioneiros, reflete o desdobramento subversivo diante das limitações e controle sofrido por essa tríade no intento de romper com o domínio da classe dirigente.

No capítulo Operários, é visível a natureza da burguesia no esforço de manter a classe trabalhadora dependente, explorando-a o máximo possível, com salários baixos, condições de trabalho ruins, longa jornada de trabalho. Além disso, adentra na construção da relação entre operários e máquinas e, principalmente, na disciplina industrial. A autora vai articulando e tecendo o olhar da vigilância nas diversas instituições e a quem prejudica e beneficia essa disciplina.

A disciplina industrial, aliás, não é senão uma entre outras, e a fábrica, juntamente com a escola, o exército, a prisão etc., pertence a uma constelação de instituições que, cada qual à sua maneira, participa da elaboração dessas regulamentações. ”

Na segunda parte do livro, Mulheres, dividido em –As mulheres, o poder, a história; A mulher popular rebelde; A dona de casa no espaço parisiense no século XIX – a autora aponta os meandros da participação da mulher nesse cenário histórico e político.  A construção da relação de poder, lugar de fala, exclusão política, matriarcado, patriarcado, a cultura do corpo, trabalho nas fábricas, trabalho doméstico, público x privado, são pontos que reforçam que a invisibilidade ou negação da mulher na história está apenas no modo de análise do objeto histórico.

O feminismo entre nós continuaria a ser um fato ‘social’, não político. A ideia de que a política não é assunto das mulheres, que aí elas não estão em seu lugar, permanece enraizada, até muito recentemente, nas opiniões dos dois sexos. Além disso, as mulheres tendem a depreciar a política, a valorizar o social e o informal, assim interiorizando as normas tradicionais. É, mais uma vez, todo o problema do consentimento que aí se coloca.”

Por fim, não menos importante, fechando a tríade, os Prisioneiros, o lado sombrio e deturpado da história da humanidade no sistema penitenciário, visto no imaginário popular apenas como espaço de regeneração coletiva, ‘umbral da terra’; é pertinente pensar quem são essas pessoas que ocupam as prisões, o real motivo de estarem lá e a relação da marginalização de classe, raça, mulheres, operários e juventude com o sistema carcerário.

Os excluídos da história: Operários, mulheres, prisioneiros no atual momento político e histórico de Brasil, torna-se uma luz no fim do túnel, uma leitura obrigatória, afinal, o presente é resultado de uma história, às vezes, mal contada. Um país sem memória é um país analfabeto político. Apesar da distância de tempo e espaço geográfico entre Brasil e França, o momento é de perdas severas para classe trabalhadora, mulheres e juventude, culminado em condições de trabalho insalubre, longa jornada de trabalho, perseguição; afrouxamento no combate do trabalho escravo e infantil, retrocesso na educacional, etc. 


16 comentários:

  1. Olá, tudo bem? Não costumo ler livros de história, mas esta obra me pareceu bastante interessante e fiquei curiosa para ler. Adorei tua resenha, dica anotada!

    Beijos,
    Duas Livreiras

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  2. Lilinha, amei.
    Foi indicação? Mesmo França, como vc disse, é bastante pertinente na sociedade hodierna. Bjos

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    1. Que honra sua presença aqui, Andréa. Saudade de tu e de nossas conversas.
      Esse livro foi uma amiga historiadora que disse que era minha cara, não resisti... Agora, estou a ler Calibã e a Bruxa - Mulheres, Corpo e a Acumulação Primitiva, de Silvia Federici e vou fazer resenha.

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  3. Oi tudo bem?
    Acredito que é uma dessas leituras em que todos devemos ler algum dia! Fiquei bem curiosa afinal é um livro que pelo visto é bem empoderador e que nos leva a refletir.

    Beijos

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  4. Que bacana esse livro menina, eu realmente não o conhecia e foi um privilégio, creio que muitas pessoas trouxeram grande influência para chegar onde estamos, mas que não são reconhecidas e nem valorizadas, gostei de saber que traz sobre as mulheres e suas ações.
    Beijinhos

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  5. Ótima indicação!
    Eu tive que ler A História da Vida Privada para o meu TCC e desde então procuro outros livros que explorem o papel da mulher na sociedade tanto no século XIX como também em outras épocas. Não tinha o conhecimento desse título e por isso fiquei bastante animada para adquiri-lo e estudá-lo. Obrigada! ♥
    Já que gostou da leitura indico Um Teto Todo Seu, da Virginia Woolf.

    www.sonhandoatravesdepalavras.com.br

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  6. Como sempre, mais uma ótima indicação de leitura encontrada aqui no seu blog. Com certeza é um livro que eu leria e gostei muito de ler a tua resenha sobre ele.

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  7. Um livro e tanto pelo visto, com uma escrita rica a autora parece saber fazer o leitor refletir durante a leitura.
    Realmente acredito se tratar de uma leitura obrigatória, isso independente da nossa atual situação.
    Dica anotada.

    Beijos.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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  8. Oiieee

    Não conhecia o livro e achei importante o tema, principalmente nos dias atuais em que atravessamos tempos bem esquisitos. Ótima recomendação.

    Beijos

    aliceandthebooks.blogspot.com

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  9. Olá, estava curiosa para ler uma resenha sobre esse livro. Ele parece, pelo seu post, ter uma temática extremamente importante, especialmente nos dias de hoje.

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  10. Oi tudo bem? Não conhecia o livro mas já fiquei apaixonada pela premissa. Vou ler assim que possível e tomara que eu também goste. Alias, ótima resenha.
    Bjs

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  11. Olá!
    Meu Deus, que livro é esse? Adorei a premissa dele, precisamos muito de obras que retratam sobre os excluídos, os que não são vivos e os que sofrem. Acho que essa é uma leitura essencial e vou anotar a dica.
    Sua resenha está incrível.
    Beijos!

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  12. Oi, Lillian! Tudo bem?
    Eu ainda não conhecia esse livro, mas achei a premissa interessante e concordo que é um tema importante, ainda mais se considerarmos a realidade atual do Brasil e de outros países.
    No entanto, não é o tipo de leitura que eu procuro. Ando querendo livros para me tirarem um pouco da realidade e não para me lembrarem dela.
    De qualquer forma, sua resenha está ótima e super completa.
    Beijos!

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  13. Parece uma leitura densa, mas significativa. A premissa é legal e a sinopse interessa. Eu leria, com certeza. Gostei da sua resenha e só de saber que é um livro que faz pensar, faz discutir a importância das minorias e das mulheres na sociedade atual, é maravilhoso. Beijos e sucesso!

    Carolina Gama

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  14. Oi,
    Não conhecia a obra mas sei que fiquei pensando aqui que esse seria um bom livro a ser trabalhado dentro das escolas,porque é lá que formamos as novas mentes pensantes do país certo. Achei interessante a dica.
    Beijos
    Raquel Machado
    Leitura Kriativa
    https://leiturakriativa.blogspot.com.br

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  15. Olá Lilian!
    Que leitura repleta de realismo. Deve trazer o leitor pra refletir e muito sobre os dias que temos vivenciado em vários cenários socio-politico do país.
    Mesmo não sendo uma leitura que gosto de realizar achei o conteúdo muito bom.
    Certamente vou indicar para uns amigos.


    Camila de Moraes

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