Fúria – de Beatriz Hierro Lopes




10 janeiro 2018
by imagem - annasandalaki-d8yeo31


Tenho por norma esta apocalíptica forma de ser pedra em chão molhado; e nada me incomodam os pés dos outros, os joelhos as mãos os rostos dos outros quando casualmente em mim resvalam. Tenho uma cidade em cada perna, e em cada coxa o tráfego, a espera, a ira do taxista e uma mão remendada abusando da paragem forçada a quem pragueja desprezo à mais alta velocidade. Tenho por peito a praça onde homens e mulheres circulam, e sei de cor cada gesto só pela vaidade de dizer: sou de tudo.

O tudo tomando café, saindo e entrado, indiferente à rua que desagua na minha língua, desconhecedor deste registo diário que me rege a correnteza do rosto ao negar lume a um desconhecido. Nego, nego tudo; e há sinos que tocam apenas nas minhas costas, santos de olhar baço a que somente o meu olhar dá luz, homens de todos os dias que esquecem beijos a cada janela, sem saberem que são minhas as portadas que lhes devolvem este sem toque de ser pedra em torrência: tempestade de granito. Batendo fúrias contra sobretudos negros, mãos quietas e esse cabelo escuro procurando proteger-se do frio.


Nada possuo de terramoto, ocasionalidade esporádica da terra enquanto geme desamores ao relento de um céu suspenso. E, se me perguntares quem sou, para onde vou, dir-te-ei: sou Outono, Inverno camuflado de vã promessa, de vã incerteza, vou para o tempo que é da contabilidade excessiva da queda dos ramos. Sou do tempo como da trovoada, e se tenho por língua um raio despedaçando nuvens, nada esperes que não seja a certeza de eu fazer dia em noite cerrada, a mais perfeita forma de romper o silêncio.

Texto de Beatriz Hierro Lopes

20 comentários:

  1. Parece-me um texto bem profundo. Acredito que se eu o lesse em um silêncio maior e em mais clima de meditação, o entenderia mais sobre o que é esse "sou", porém, mesmo sem ter essa atenção e compreensão (infelizmente), percebi se tratar de algo muito bem elaborado. Tenho alguma dificuldade com texto poéticos, não nego, mas está muito bem escrito! Parabéns!

    Abraços,

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  2. Que texto fascinante menina, você sempre trazendo novidades e autoras que eu desconhecia, amei o trabalho da Beatriz e vou procurar para saber mais.
    Beijinhos

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  3. Hey, Lilian!

    Que texto forte! Acho bonito com "a pedra" se desnuda tão bem no decorrer da leitura, sem mostrar muito de si. Mostra apenas o interior e nisso podemos perceber o quão intensa ela é. Lindo, lindo!

    Beijos!

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  4. Gosto de poesias, assim como sou fascinada pelos textos que traz aqui nesta página. Cada um me traz uma diferente conexão, descreve uma diferente história em minha mente e aprecio muito isso. Parabéns a Beatriz, que soube através destas poucas palavras me contar uma grande história.

    Beijos.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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  5. Eu não conhecia a Beatriz Hierro e gostei muito desse texto que você nos trouxe, um texto forte, cheio de simbolismo e adorei lê-lo.

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  6. Olá, tudo bem?

    Adorei o texto, forte, reflexivo e profundo. Fico encantado com os textos que você traz Lilian, está de parabéns!
    Beijos

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  7. Oieee
    Que texto bacana, profundo e sem dúvidas muito forte. Deu uma ligação bem bacana e provocou muitos sentimentos. adorei, poucas palavras mas muito significativo

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  8. Oiieee


    Não conhecia as poesias da Beatriz, super bem escrita e profunda no tocante ao que narra. Obrigada pela descoberta.

    Beijos

    www.derepentenoultimolivro.com

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  9. Olá, tudo bem?
    Que poesia linda. Não conhecia a escritora, com certeza vou dar mais uma pesquisada.

    Beijinhos,
    https://livroseimaginacoes.blogspot.com.br

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  10. Não sou muito de ler poesias, mas que texto lindo e forte, com vários detalhes do nosso dia-dia que acaba passondo despercebidos pela correria.

    Bjus*
    http://imagine-livros.blogspot.com.br/

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  11. Olá, tudo bem? Nossa, que texto mais fascinante e incrível! Meus parabéns a escritora, pois sabe escrever muito bem!

    Beijos,
    Duas Livreiras

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  12. ** Não sei se meus comentários anteriores foram, mas tentarei mais uma vez pq estou tendo problema com os formulários do google.

    Eu adoro os textos que vc traz aqui para o blog. É maravilhoso poder refletir e fico fascinada com as palavras.

    Beijos

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  13. Oie!
    Amei esse texto!! Amo esses textos, poesias, crônicas profundas e inspiradoras.
    Beijos

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  14. Olá, que texto bem escrito! Fui só lendo e admirando. Gostei muito.

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  15. Não conhecia a autora, muito interessante a sua iniciativa de divulgação dessa forma.
    Como sugestão, eu acho que seria bacana você colocar porque escolheu esse trecho e a sua opinião sobre ele, o que sentiu, algo do tipo.
    Gostei do texto, a gente se sente na pele da própria autora em seu texto.

    Bjos
    Lucy -Por essas páginas

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  16. É um texto que faz jus ao título do seu blog. Profundo e que toca a alma!

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  17. Sou tudo e sou nada me transformando no decorrer da vida. Gostei.
    Bjs, Rose.

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  18. Olá, tudo bem?
    Sempre que leio textos assim, fico com invejinha branca, sabe? Eu nunca sou criativa ou sentimental a esse ponto de saber escrever coisas tão lindas. Mas, pelo menos, posso lê-las, né? Adorei o texto, mas o terceiro parágrafo roubou meu coração Beijos <3

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  19. Olá Lilian!
    você tem o dom de captar os textos mais profundos, intensos e que transbordam conhecimento interno. As vezes leio e releio para entender a complexidade daquilo que os textos querem passar e fico abismada com tamanha riqueza.
    Não sou muito adepta aos poemas, poesias, nas minhas leituras diárias, mas agradeço esses momentos que venho aos blogs amigos e saio repleta de conhecimento.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  20. Esse texto me lembrou bastante a Lya Luft no início da carreira. Bem bonito, de fato. Tem de ser relido.

    ;*

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