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não temos uma linguagem para os finais





Não temos uma linguagem para os finais,
para a perda do amor,
para os concentrados labirintos da agonia,
para o escândalo amordaçado
dos desmoronamentos irreversíveis.

Como dizer a quem nos abandona
ou a quem abandonamos
que juntar outra ausência à ausência
é afogar todos os nomes
e erguer um muro
em redor de cada imagem?

Como fazer sinais a quem morre,
quando todos os gestos já secaram,
as distâncias se confundem num caos imprevisto,
as proximidades ruem como pássaros doentes
e o caule da dor
se quebra como o pedal
de um tear desalinhado?

Ou como falar cada um a si próprio
quando nada, quando já ninguém fala,
quando as estrelas e os rostos são secreções neutras
de um mundo que perdeu
a memória de ser mundo?

Talvez uma linguagem para os finais
exija o total abandono das outras linguagens,
a imperturbável síntese
das terras devastadas.

Ou talvez criar uma fala de interstícios,
que reúna os mínimos espaços
intercalados entre o silêncio e a palavra
e as ignotas partículas sem desejo
que só ali promulgam
a equivalência última
entre o abandono e o encontro.


(Roberto Juarroz
in A Árvore Derrubada Pelos Frutos)

4 comentários:

  1. Olá, obrigada pela oportunidade de ler essas palavras, realmente não temos uma linguagem para os finais no mundo em que vivemos atualmente.

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  2. Olá

    Realmente quando algo acaba e vem a separação inevitável não existe palavras para expressar o que sentimos ou pensamos para o outro. É como se o momento descartasse a necessidade de palavras que acabam sendo insignificantes.

    Beijos

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  3. Como alguém que cursou Letras e teve maior contato com a linguagem através do curso, posso dizer que tenho um afeto pelas palavras e pela linguagem em si; linguagem essa que muda em todos os aspectos e momentos da nossa vida e que nunca permanece igual, imutável. É difícil falar sobre o fim, mas achei belíssima a maneira que o poeta o dissecou.

    www.sonhandoatravesdepalavras.com.br

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  4. Realmente é difícil nos expressar, pensamos que isso seria mais fácil com o tempo, mas nem sempre é. Adorei as palavras

    Sai da Minha Lente

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O Poesia na Alma pertence ao universo da literatura livre, como um bicho solto, sem dono e nem freios. Escandalosamente poéticos, a literatura é o ar que enche nossos pulmões, cumprindo mais que uma função social e de empoderamento; fazendo rebuliço celular e sexo com a linguagem.

@Poesianaalma